Eu não sei ver a hora, mas no quarto do meu pai e da minha mãe tem relógio sem ser de girar; quando eu acordei hoje, eram dez e trinta e nove da manhã. Era terça, mas eu num ia na aula de natação, porque a minha mãe num ia poder levar eu. A minha mãe disse ontem que amanhã eu podia dormir até mais tarde um pouco, mais eu num queria, porque eu sabia que hoje no Digimon eles iam sair do digimundo e voltar pro mundo real; e eu queria ver, né? Eu tinha pedido pra ela me acordar cedo, mas ela esqueceu, eu acho. Na hora que eu acordei, eu desci a escada correndo, bem depois que eu olhei o relógio. Daí eu caí no último degrau, mas eu nem chorei. Minha empregada tava na sala, ela foi ver se eu tava machucado. Ela falou oi pra mim e eu falei oi pra ela. E aí eu liguei a televisão, mas ainda tava passando Tico e Teco, e Digimon passava depois. Daí eu fiz um leite com toddy e fiquei vendo Tico e Teco, só que eu gosto mais de Digimon. A minha empregada chama Luísa, daí uma hora a Luísa subiu lá em cima da escada pra arrumar a minha cama e eu fiquei vendo desenho. Quando já tava terminando o Tico e Teco, o desenho parou no meio, daí apareceu uma musiquinha e começou o jornal. Eu pensei que eu tinha sentado no controle e tinha mudado de canal, mas quando eu tentei voltar pro canal do desenho denovo continuava no jornal. Daí eu esperei um pouco pra ver se voltava a passar desenho, só que daí eu fiquei um tempãozão esperando e num voltou. E foi muito chato mais chato que jornal normal porque num mudava de notícia nunca, era toda hora só falando dum acidente dum prédio no Estados Unidos que tava pegando fogo que tinha batido um avião nele. Eu queria Ikkakumon pudesse aparecer e dar um Sopro de Gelo nessa droga de prédio chato pra mim poder ver desenho. Uma hora daí a Luísa desceu a escada meio correndo que nem eu desci, só que ela não caiu. Daí ela olhou pra televisão e fez uma cara de susto e desligou e ela disse pra mim ir brincar de outra coisa que aquilo num era coisa de menino de 5 anos assistir. Daí eu fiquei confuso: nem tinha mulher pelada!
sábado, 25 de setembro de 2010
O Prédio que Tinha Batido um Avião Nele
Postado por Pedro Figueira às 9/25/2010 06:54:00 PM 0 comentários
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Coração Mole: 2ª e Última Parte
Foram uma manhã de quarta-feira o dia e a hora planejados por Mariene para a realização de seus planos. Marcou o despertador para vinte minutos mais tarde, e se arrumou com se não estivesse atrasada. Chegou atrasada de propósito, pulou o muro para entrar. Ouviu do lado de fora; sua classe tinha aula de inglês, como planejado. Escolhera este dia principalmente porque essa professora era uma velha metida e porque seu aparelho vocal simplesmente não se adaptava a esse idioma chato cheio de vogais indefinidas, consoantes cuspidas e R’s puchados.
Chegou à porta de da classe. Nem me pergunte onde nem com quem ela arranjou um revólver, mas ela tirou um de dentro da mochila e entrou.
– Todo mundo pra parede! – Berrou com toda sua raiva e força. Como uma manada forte e numerosa de búfalos, os mais de cinquenta adolescentes e a velha metida acataram covardemente as ordens da leoa. Apertaram-se contra as paredes e contra si, tremendo de medo de uma baixinha com uma arma de fogo.
– Mariene, não faça nenhuma besteira. – Suplicou a professora. – Pelo amor de Deus, seja boazinha e largue essa ar...
– Cala a boca, sua velha filha da puta! – Interrompeu-a com ira. Voltou o olhar de volta aos colegas. – Vocês pensavam que iam sair assim, impunes?! Eu vim aqui pra São Paulo, me livrar daquela miséria de Pernambuco. Mas o que eu encontrei?! Vocês, seus escrotos, medíocres, seus merdas de jegue com lombriga, vocês fizeram desses quatro meses que eu morei nessa porra dessa cidade os piores quatro meses da minha vi...
– Calma, Mariene. A gente não sabia que você ia ficar assim bra... – Tentou conciliar Leandro, um menino que ela nem lembrava que existia, mas que ela odiava da mesma maneira que todos. Mariene interroumpeu-o brutalmente.
– Eu mandei vocês todos ficarem quietos! – Mariene esgoelou freneticamente. – Agora nem vem querendo pedir desculpa! Vocês pensam que eu sou retardada?! Se eu perdoo, eu sei que vocês vão voltar a atazanar a minha vida. Eu faço um bem pra a humanidade exterminando vocês, seus vermes! Vocês já foram longe de mais, agora não tem mais volta. Rezem o máximo que vocês conseguirem, vocês têm uma dívida grande demais com Deus.
Nesse intante, eis que surge um sussurro de um espírito amigo que amolece o coração de Mariene. No frenesi da escolha de sua primeira vítima, Mariene bate o olho em Bianca, uma menininha branquinha, fraquinha, mirradinha; ela até que era legal, não zoava muito Mariene. Falou algumas vezes com ela; tinham bastante em comum, o bastante para serem amigas, se não fosse pela segunda razão do décimo terceiro parágrafo. Bianca não precisava morrer hoje.
Mariene coçou a testa:
– Pensando melhor, – Apontando a arma para Bianca. – Bianca! Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Chamou-a com a mão do revólver, e mandou encostar na outra parede. Bianca obedeceu, ficou lá na parede sem fazer nada, tremendo de medo da chacina que presenciaria. – Agora vocês vão ver só, seu bando de tripa de bode com lavagem!
E mirando nervosamente o revólver em alguém, Mariene por acaso deu com a vista em Orlando, ou Haroldo; alguma coisa assim, ninguém lembrava direito. Era um moleque alto, timidozinho, mais mudo que uma pedra, com quem até Mariene nunca falara direito, nem ninguém. O garoto estava impressionantemente calmo para quem está prestes a morrer. Talvez ele tivesse algum grau de autismo, que, por negligência da família e da escola, nunca fora diagnosticado. O fato é que esse menino que ninguém sequer lembra o nome também nunca fizera mal a ninguém; ele não precisava morrer hoje.
– Hei, Arnoldo. – Do mesmo modo, mirou-lhe o revólver. Não havia nenhum Arnoldo na classe, porém ele sabia que se tratava dele mesmo. – Venha pra cá também. Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Os colegas que estavam próximos, por caridade empurraram-o para fora do amontoado. Mariene conduziu-o até a parede onde Bianca permanecera e voltou a sua mira nos agora menos de ciquenta alunos mais a velha metida.
Todavia, como das outras vezes, o espírito do bem a guiou a perdoar seus colegas e um a um ela os foi passando para a outra parede. Depois do garoto, foram absolvidos a Joana, a Emily, o Edílson, o Robson, o Malcon, a Joice, a velha metida.... até sobrarem apenas a Helena e mais quatro de sua laia para morrer.
O coração mole de Mariene a levava a matar apenas quem realmente devia. Olhou de novo os condenados e proferiu:
– Eu sou mesmo muito boazinha, né? Mas, vocês cinco, ah! , vocês não têm escapatória.
Direcionou a arma bem na direção de seu maior alvo, Helena, aquela bruxa maldita. Mirou bem; não podia errar; sabia que todo mundo correria depois do primeiro disparo. Ouviu-se um bum por todo o Estadão e o piso da sala sujou-se de sangue e líquido cefalorraquidiano.
– Chega de palhaçada!
Na porta da sala, aparecera Torresmo, salvando a vida de sua amante e suas amigas. Abraçou forte Helena, a quem, por mais que odiasse, queria.
– Tá tudo bem com você, gata? Quando eu soube do que tava acontecendo, fiquei com tanto medo que você morresse!
Beijaram-se nervosamente, e olharam para o cadáver de Mariene estirado e ensanguentado no chão.
– Ah, gato, esse menina é pirada.
Algum dos salvos da outra parede tivera a brilhante ideia de mandar uma mensagem para Torresmo; no fundo, todos sabiam que a diretoria ou a polícia não resolveria nada. Bateu o sinal; apareceu o professor de álgebra e tiveram aula normalmente. Nenhum aluno da sala comentou nada durante a aula, mas trataram de espalhar bem o ocorrido no recreio, e ainda mais depois da aula no Orkut. Quanto ao corpo de Mariene, a faxineira deu conta disso mais tarde.
Postado por Pedro Figueira às 9/14/2010 09:35:00 PM 0 comentários
domingo, 12 de setembro de 2010
Coração Mole: 1ª Parte
O Parque Três Marias acabava de ganhar quatro novas moradoras.
A crise mundial fechara, na periferia recifense, o Abatedouro Boi-da-Cara-Preta. Uma das trabalhadoras era Eliane, cujos anos já somavam trinta e cinco; a cara aprentava já uns cinquenta; os músculos, ainda uns vinte. Criava ela sozinha duas filhinhas gêmeas de dois anos, cujo pai as abandonara, e uma sobrinha de quinze.
Há muito que já pensava nisso, enquanto ainda estavam estáveis em sua terra natal: ir para São Paulo já era vontade há muito tempo. Não foi nada muito planejado, mas, ao aportar em Taubaté, Eliane acabou arranjando um emprego de doméstica e uma casinha bem simples; se é que se pode chamar aquele barraco de casa; dois cômodos: um banheiro e um quarto-sala-cozinha; para ela, as filhas e a sobrinha chamarem de lar.
Isso deu-se lá por janeiro, de modo que ainda deu tempo de Mariene, a sobrinha, matricular-se no Estadão. Mesmo ainda em Pernambuco, Mariene nunca deixou de estudar; tinha muitas dificuldades, porém era uma aluna razoavelmente aplicada para quem cuidava de uma casa inteira e de duas gêmeas pentelhas. Ela sabia que quem não tem educação não tem como subir na vida. Veja-se o exemplo de sua tia e sua mãe: quando elas vieram analfabetas do sertão para o Recife, nem quiseram saber de procurar um supletivo. Restou a Eliane ceifar as vidas bovinas e à mãe de Mariene vender o corpo a turistas europeus e a caminhoneiros em abstinência. Bem, é fácil adivinhar que foi por causa de um “acidente de trabalho” que Mariene nasceu.
No primeiro dia de aula, Mariene chegou naquela classe toda zoneada com vista para a Via Dutra. Não estranhou, já estava acostumada ao fuzuê da educação pública. Viu aquela infinidade de mais de cinquenta carteiras e cadeiras, muitas delas quebradas, com adolescentes papeando e brincando enquanto a aula não começava. Mariene vestia-se com a mais absoluta simplicidade; calça jeans, camiseta branca e all-star preto, tímida pelo primeiro dia, sentou-se numa cadeira vaga da primeira fila, como era seu hábito em Recife. Ela era uma mulata baixa e corpulenta; não tapava a vista de ninguém; exceto quando os seu cabelo bombril estava mais armado que de costume. Já tivera uns dois namorados no Recife, mas não podia ser considerada bonita; estava, com muita boa vontade, entre média e feia. Enquanto esperava, conversou com umas meninas perto de si: é bom começar novas amizades.
A professora chegou. Os outros alunos, aparentemente, se amansaram. Era aula de química. Apresentou-se e começou a chamada. Foi seguindo a lista toda normalmente; até o número 36.
– Mariana.
– É Mariene, professora. – Corrigiu; num tom perfeitamente educado. Mariene pecara foi em nem tentar esconder seu sotaque nordestino; aliás, não pecou em nada. Pôde ouvir um grupinho de piranhas gargalhando no fundo da sala.
– Vê se aprende a falar direito, sua baiana morta de fome.
“Não, eu não ouvi absolutamente nada lá de trás.” Mariene pensou com insistência ao ouvir aquela voz fina de taquara-rachada zombando de sua origem “baiana”. Ignorou a provocação; Mariene tentou ser racional e pacífica; sabia que um revide não levaria a nada. A educadora fingiu que não tinha ouvido nada; duvido mesmo que tenha; e continuou a fazer a chamada. Alienadamente, ensinou nos cinquenta minutos seguintes o que é um átomo e se foi. Mariene, pelo contrário, não pôde ignorá-la, posto que a cada minuto escutava a voz rir alto e ardidamente, com mais monte de vozes cortesãs ao fundo.
Sentada numa mesa do fundo da sala estava a dona da voz que ria com um monte de paga-paus em volta. Era Helena, uma morena super gostosa. Pela educação continuada, ela fora aprovada até o primeiro ano; mas ia à escola sem outro porquê se não o de sua mãe mandá-la. Para alguém com ela, Helena até que respeitava seus pais. Não hesitava em matar aula quando queria, porém não era assim tão sempre. Vinha sempre bem maquiada, sempre de top e shortinho curto, revezando entre o jeans e a alfaiataria; ou ainda às vezes de minissaia ou de blusinha. Quando estava frio, era sempre um jeans colado que tranparecesse as curvas das suas pernas; e aproveitava para usar biquíni por baixo do casaco; sem falar que nunca descia de um salto alto. Vivia cercada de súditos que riam de suas zoações e surravam quem ela tinha vontade. Assim como toda mulher bonita e esperta, Helena era companheira de um cara poderoso. Seu namorado era alcunhado Torresmo, um traficante ascendente no bairro. Ele já tinha quase trinta anos, mas... você sabe. Pelo tipo de gente que se trata, é plausível imaginar que Helena já havia posto alguns pares de chifres na cabeça de Torresmo. É também bastante plausível que Torresmo promovesse que tais amantes tivessem logo seu encontro com Deus. Não eliminou todos, porque eram mesmo amantes demais, dos quais os vingados eram só a ponta do iceberg.
As seis horas diárias de escola passaram a ser um inferno na vida de Mariene. Não podia escutar uma música no celular que comprara que Helena a chamava de excluída. Não podia conversar com outra menina que Helena a chamava de paga-pau. Não podia conversar com um menino que Helena a chamava de piranha. Não podia responder uma pergunta certa ou tirar uma nota alta que Helena a chamava de nerd. Não podia responder uma pergunta errada ou tirar uma nota baixa que Helena a chamava de burra. Sem falar que seus súditos sempre riam de suas caçoadas e humilhavam Mariene ainda mais.
Aguentou tal situação relativamente calma até meados de maio; teve um piti e alguns derramentos de lágrimas nesse caminho; estas aconteceram em casa bem escondidas, onde havia duas criancinhas e uma tia que não se importavam. Quando deu o piti, jogou tudo que estava a mão sobre Helena, o que só fez toda a sala rir dela e os capangas da Helena aplicarem-lhe um corretivo. Depois disso, tomou sua decisão.
Já se passavam quatro meses, não entendia como tinha suportado tanto tempo. Só se aproximavam dela para rir. Cambada de terroristas! Eram um caruncho podre que enfeiava a batata de sua vida. Caruncho, que até agora ela engolia passivamente, Mariene percebeu que deveria cortar. Fazia um bem para a sociedade: se não fosse ela, haveria outra em seu lugar, chorando sempre ao voltar para casa. E aqueles vagabundos estariam sempre pisando em cima dela, expremendo todo o sangue e seus gritos de dor, simplesmente porque achavam engraçado. Corja de psicopatas! Era preciso decepar o mal pela raiz!
Postado por Pedro Figueira às 9/12/2010 04:40:00 PM 0 comentários
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Eles se Merecem
Avistava-se o sol já vermelho refletido no rio, às sete da noite, na marginal do Tietê, parada; não como todo dia; mas como numa quarta-feira antes do Dia de Finados: um monte de paulistanos preparados para passar nove horas na serra dentro de um carro, como se valesse a pena, por uma praia lotada, chuvosa e fedorenta. Iam muito contentes por dentro, apesar de aproveitarem cada instante imóveis, que não são poucos, para xingar o motorista do carro à frente. Nesse turbilhão de alegria e estresse, incluía-se Fernanda, num ônibus, voltando para casa em Taubaté.
Fernanda aproveitara seu último dia de férias para passear em São Paulo com uma irmã que lá residia. Passearam no shopping pela manhã, chuparam sorvete, compraram maquiagem, almoçaram e viram muitas roupas, bolsas e celulares; e procuraram pelos respectivos similares à tarde na 25 de Março. Encontraram a maioria deles, inclusive um celular com wi-fi e televisão analógica que Fernanda aspirava há algum tempo. Compensou enfrentar a muvuca da capital paulista por ele.
Já fazendo uns vinte minutos da partida do ônibus da rodoviária, Fernanda encontrou-se ainda em frente ao Center Norte; concluiu que não chegaria tão cedo um quilômetro a frente, quem dirá em casa. Tirou a caixa do celular da sacola, e daquela o celular em si. Resolveu assistir o jornal, mas a bateria acabou antes mesmo de começar a novela. O jornal só falou do engarrafamento de mais de duzentos quilômetros em que estava inserida. Era angustiante. Suspirava umas três vezes a cada frase do repórter, sentiu até certo alívio quando o celular desligou. Esperou pacientemente um tempo, até dormir. Acordou depois de uma quase hora, ainda em frente a Corinthians.
Era melhor avisar alguém, deduziu. Seu pai logo pensaria que ela fora assaltada e não tinha dinheiro para voltar. Sua avó, então, pensaria que estava num hospital em Guararema repleto de acidentados de um engavetamento na Dutra. Sua mãe, nem se fala, pensaria que estava morta. Pensou em ligar para eles, mas queria falar com outra pessoa primeiro.
Pegou o celular velho e telefonou para o primeiro contato das últimas ligações, seu namorado. Ele não atendeu; não importa, não era uma ligação assim importante.
- Oi, gatinho, quem fala é a Fefê! Tô ligando pra avisar que eu vou chegar bem tarde hoje, daí eu vou direto pra casa e a gente se vê amanhã, viu? Você não acredita como tá trânsito hoje! Sabe, eu achei aquele celular com televisão que você queria. Eu tava assistindo o jornal agora: são mais de duzentos quilômetros de congestionameto! Tá um saco aqui, gatinho, mas amanhã a gente se vê. Te amo muitão! Tchau.
Desligou antes que desse um minuto de ligação. Ligou para sua casa, avisou da demora, e pronto. Quando adormecia, já algumas dezenas de metros frente, o telefone tocou. Era uma mulher, com uma voz um tanto raivosa.
- Boa noite, esse é o número da “Fefê”?
- Hã... – Achou estranho, só seu namorado a chamava de “Fefê” - Sou eu mesma, Fernanda.
- Minha filha, tô te dando um conselho: não quero mais nenhuma relação entre você e o Dalton. – Fernanda ficou confusa: ela não conhecia Dalton nenhum.
- Mas quem é...?
- Ele é MEU marido. – A esposa a interrompeu. – EU cheguei primeiro, e num vai ser uma fulaninha qualquer que nem você que vai tirar ele de mim. Não quero mais você falando com ele, nenhuma ligação, nenhum MSN, nenhum e-mail, nenhum torpedo, capisce?!
Fernanda achou melhor continuar o jogo dela, respondeu que sim, assim ela desligava logo. Ela não tinha nada a ver com isso; além do mais, o que aquela ciumenta doentia que ela nem conhecia podia fazer?
- Bom mesmo. – A mulher respondeu. – Você não sabe do que eu sou capaz. Adeus.
“Que paranoica!” Fernanda pensou “Coitado do marido dela!”
Resolveu ouvir um pouco de música em seu MP3. Depois de um tempo pensando em sua história curiosa, percebeu que havia esquecido do 0xx12 na hora de ligar para seu namorado. Fora só um engano, do qual já podia tirar algumas risadas.
Depois de um tempão, quando o ônibus já passava no pedágio de Arujá, seu celular tocou de novo.
- Oi, esse é o celular da Fernanda?
- Eu mesma.
- Aqui é o Dalton, doçura. De onde que a gente se conhece mesmo?
Postado por Pedro Figueira às 7/29/2010 12:08:00 PM 0 comentários
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Velhos Ridículos
Já não era tão cedo no domingo de manhã quando Henriques e seu neto saiam do supermercado do bairro. Era julho, fazia sol, mas estava bastante frio; todo mundo devidamente encapotado no estacionamento. Haviam feito as compras da semana; arroz, alface, papel higiênico, sabão em pó..., além de umas bolachas e chicletes para o Guilherme, o neto; supermercado com avô tem sempre uma guloseima. Guilherme tinha então treze anos, veio de São Paulo passar as férias com seus avós, onde, além do mais, o resto da família morava. Depois que Henriques pagou, Guilherme passou dirigir o carrinho, enquanto seu avô o conduzia à sua frente, ajudando-o a desviar dos carros; apesar de não haver muitos para esbarrar. Henriques estacionara seu brasília de bunda para a outra vaga, a fim de facilitar a saída. Sorte que, quando voltaram, ainda não havia nenhum carro estacionado atrás, o que facilitaria muito a colocação das compras no porta-malas.
Enquanto Henriques punha um saco de ração no carro, eis que surge um palio cobiçando a vaga de atrás. Não estacionava nela, como dito, pois o carrinho de Henriques a ocupava. O palio buzinou.
- Vô, o cara tá querendo a vaga de trás.
- Espere, por favor. – Pediu Henriques a motorista, com a máxima polidez, sem nem desviar o olhar do serviço.
A buzina tocou de novo. Henriques olhou para trás, reconheceu o motorista, suspirou e leventou uma sobrancelha. Continuou a colocação, e murmurou para Guilherme:
- Ah, esse daí... ele que se foda.
O motorista irritou-se. Percebendo que os dois não se moveriam até terminarem, ele foi jogando o carro devagarinho para cima da vaga. Foi lento e silencioso, de modo que Henriques e Guilherme não reparassem até o corsa relar no carrinho e o carrinho, por sua vez, arranhar a trazeira do palio que Henriques comprara ainda esse ano.
- Porra, Macedo, seu filho da puta, o que que você tá pensando?! – Henriques gritou furioso.
- É pra ver se você não a tomar mais o meu lugar, Henriques. – Macedo declarou na calma mais sarcástica, depois de extravasar sua raiva no palio.
Macedo e Henriques eram vizinhos, inimigos há muito tempo, e por uma série de motivos. Macedo roubou de Henriques uma namorada. Henriques, de Macedo, roubou-lhe a esposa. Macedo, no emprego da fábrica, puxou de Henriques o tapete. Henriques, recuperando-se, comprou um terreno, por infortúnio, ao lado da casa de Macedo. Até aí, só se evitavam; mas logo começaram as mas diversas picuinhas: “o Macedo fica ouvindo música alto até tarde da noite!”, “o esgoto do Henriques tá sempre vazando, é um fedor!”, “a árvore do Macedo vai cair em cima do meu muro, e entope toda a calha!”, “mas essa brasília barulhenta do Henriques, me dá asma!”... Sem contar que os respectivos cães só defecavam em frente à porta do outro.
Nada dá mais raiva que um inimigo sarcasticamente calmo. Agora que as veias de Henriques se dilataram com o volume sanguíneo e saltaram-lhe pela careca. Quase estourou a caixa de leite que segurava, de doze litros em longa vida; enquanto pensava em uma resposta. Mas não achou. Terminar sem revide significaria perder. Jogou os doze litros sobre Macedo. Este tentou desviar-se, porém recebeu-os num ombro. Sobre o leite derramado no chão Macedo proferiu, ou melhor, gritou, derrubando-se toda a força da calma:
- Vai tomar no cu, você tá louco?! – E meteu-lhe o punho na face enrugada. E Henriques esmurrou-lhe a barriga, e Macedo chutou a bunda, e Henriques deu um pontapé na canela, e Macedo empurrou-lhe o carrinho sobre a pança... Até terminarem os dois rolando pelo chão, todos sujos de asfalto e sangue.
Henriques terminou por cima, havia acabado com toda sua raiva; vitória! Socou mais uma vez o queixo de Macedo com sua mão dolorida antes de olhar ao seu redor. Funcionários e algumas tiazinhas assistiam, absortos e preocupados. Alguns, mais egoístas, passavam quase tapando a cara de vergonha da quela cena. Guilherme e mais um bando de moleques, e inclusive um bêbado, que estavam ali perto, os assistiam, torciam e faziam apostas. Henriques levantou-se, guardou as compras no porta-malas o mais rápido que seu sessenta e três anos permitiam; puxou Guilherme pelo braço, fê-lo entrar no carro e partiu, vexado por sua petética versão de Street Vale-tudo Sênior.
Ao partirem, Guilherme declarou animado:
- Nossa Senhora, o meu vô é muito foda! O senhor bateu pra caralho hoje, hein vô?
Postado por Pedro Figueira às 7/12/2010 03:38:00 PM 0 comentários
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Les Baiser Ont Deux Côtés
Hier, j’ai donné
Mon premier baiser.
Le plus sucré de ma vie
Car Il fut le premier.
Ça s’est passé hier
Dans le bal d’une amie.
Elle a fêté ses quinze ans.
Avec une nuit entière dansante.
Dans la valse toujours belle
Quinze couples, quinze chandelles
Pour éteindre avec un prince
Parmi lesquels je n’était pas inclus.
Après la valse, pendent la fête
Moi e mes amis nous rencontrâmes.
Parmi les jeux et les causeries,
On connut des très belles filles.
D’entre elles, la plus jolie,
Clara, ma douce nymphette.
Elle était très joyeuse,
un sourire très gracieux
qui, de tant claire et souriant,
fermait ses suaves yeux.
Ils étaient comme du café au lait
dont les saveurs se mélangent
pour à tout le monde captiver.
Après qu’on dansa un peu,
On est sorti du salon,
On s’est assis sur un banc
On a parlé sur des choses bêtes.
J’ai mis mon plan em action:
Je lui susurrai à son orreille
- Jetes un œil sur le ciel,
il y a un ovni.
- Je n’y voit rien. L’y voit-tu?
- Fait attention. – Je lui dis.
- Tu n’es qu’un fou. – Elle a sourri.
- As-tu peur des alien?
- Quoi?!
Clara a monté un sourcil
et bougé son visage encore à moi,
m’a miré aux yeux, en attendant.
Je n’ai pas perdu le temps.
- Laisse-moi de t’en proteger.
J’ai mis ma man dans ses cheveux,
raides et tendres comme les nuages,
mais beaucoup plus parfumé.
J’ai approché mes lèvres des siens.
La soueur par mon front a coulé.
Mon cœur battit vite tout à coup;
Comme si j’eusse une crise cardiaque
En fin, j’ai fini mon epopée.
On s’est baisés pour tant de temps,
Qu’au moment paraîssait un seconde
après quinze ans de millénaire attente.
Ma langue caressa la sienne,
comme on caresse une tendre peluche,
l’a tâté avec tant de soin
que les goûts tous j’ai pu goûter.
La saveur, j’avais pensé,
ne serait e aucune;
(La salive a-t-elle une saveur quelleconque?)
pourtant, il y avait un saveur,
tant alcoolique et viciante,
qui même m’ôtait de la memoire
de sa chaud bouche lâcher.
Après de cette soirée épique,
nous échangeâmes nos facebook,
nos MSN et nos números;
pour que notre soir romantique
continue à jamais
de garder mon cœur chaud
et avec une marque, em disant:
Clara et Pedro.
--------------------------------------------------
Hier, j’ai baisé un garçon
au bal d’une ma amie.
Il n’était pas si laid.
Son nez était trop grand, oui,
Mais plutôt cool il était.
Après qu’on avais dansé un peu,
il m’a emmené au jardin,
où on s’est assis sur un banc.
On a bavardé sur la musique,
Des jeux vidéos et des filmes...
Jusqu’à l’heure il m’a dit:
- Jetes un œil sur le ciel.
Il y a un ovni.
De nulle part, ce sujet a surgi!
J’ai pensé qu’il plaisantait
J’ai continu sa blague:
Je n’y vois rien. L’y voit-tu?
- Fait attention. – Il m’a dit.
- T’es qu’un fou. – J’en ai ri.
- As-tu peur des alien?
- Quoi?!
Trouve-t-il que je peux être enlevée?
- Laisse-moi de t’en protéger.
Je l’ai miré aux yeux
et été sûre qu’il était piqué.
Il a posé sa main dans mes cheveux;
les a laissé tous grasses e puent
grâce aux amuse-gueueles qu’il avait mangé.
Il m’a visé aux fonds de mes yeux
comme qui a l’adrenaline au sang
et presque meurt de tant nerveux.
J’ai pu sentir vers cent palpitations
de son cœur, avec sa main à mon épaule.
J’imaginais déjà ce qu’il voulait...
Ç’a été un moment très drôle.
Il donc a dédidé
de finalement me baiser.
J’ai déjà vu des meilleurs...
Pouah! Comme il baisait mal!
Maintenant, en mieux pensant,
Je crois quil n’était pas si mal.
Je trouve que je peux l’enseigner
à être un homme pour moi.
C’est dommage que j’ai perdu
le papier avec son MSN écris.
Et même son prénom,
j’était trop ivre pour me souvenir.
(Eu não lembro se foi assim mesmo que eu mandei pro concurso, mas, em todo caso, lê aí, é meio loser mais engraçadinho. hehe)
Postado por Pedro Figueira às 6/21/2010 09:49:00 PM 0 comentários
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O Frio Sueco
Já passavam das vinte e duas horas quando Iara pôs os pés em terra. O frio do inverno sueco cortava a sua face, até então protegida pelo aquecedor que funcionava no navio. A cidade de Gotemburgo já estava adormecida; com exceções metropolitanas e espanholas, as cidades da Europa costumam dormir muito cedo, de modo que não houvesse mais nenhum comércio, restaurante ou boate abertos em Gotemburgo. Só refletiam na ainda tênue camada de neve as luzes dos postes, bem espaçados, pois não se avistava mais acesas as luzes de nenhuma edificação nas redondezas. Iara não tinha celular; naquela época, do início dos anos noventa, ninguém os tinha. Não foi preciso caminhar muitas quadras, a partir do porto, até encontrar uma cabine telefônica.
Embora um tanto duro de abrir, Iara insistiu em fechar a cabine. Estava frio demais. Qualquer fio de vento que adentrava a cabine era uma seta furando e fazendo arder sua pele, mesmo que quase inteiramente coberta. Os botões eram muito pequenos, mas Iara não podia se dar ao luxo de tirar fora as luvas: era frio demais, um gelo de gangrenar até as mãos mais nórdicas.
Tu... Tu... Tu... Ninguém atendia. Iara sabia que Björn, seu então namorado, tinha o sono pesado feito chumbo e temia que ele não acordasse para buscá-la. Ele morava em outra cidade; não havia condições para atrever-se a ir a pé. Percebeu que seu temor se concretizara quando a secretária eletrônica atendeu. Tentou mais umas quatro vezes e veio-lhe aos ouvidos a mesma voz robótica da secretária. Não entendia uma só palavra do sueco que ela sussurrava, além do “god dag”, que Björn já lhe havia ensinado, mas saber sueco não era o importante naquela hora; o sinal que soa após “deixe seu recado após o sinal” é um som universal.
– Hello? Björn? Please, get up as soon as you see your answering machine blinking. – Iara estava com muito frio para pensar no que dizer. – It’s Iara here. There were some bosnian in the ship, so... you know, the police interviewed one by one... Because I have dark hair, dark eyes, these things; they thought I was bosnian too. I had to wait for them to see my passport, tell them I was tourist, brazilian, I would stay in your house..., all that rubbish. At last, I’m here phoning you. – Iara, nesse instante, mudou seu tom de voz, aplicar nela um nervosismo explicitamente subentendido. Avistara ao longe na curta rua algo que a obrigava a acelerar o ritmo da pronúncia. - For God’s sake, come fast! It’s too cold, I’m too tired, I am hungry, I have no money! I’ll get back to the port and I’ll be there waiting for you, right? Bye, I love you.
Não se costuma ver alguém andando na rua àquela hora, mas era isso que Iara via. Um homem, cuja face não se via por causa da distância, cachecol e de seus pouquíssimos graus de miopia, se aproximava. Ela atemorizou-se. Só podia ser um assaltante. Falar-lhe-ia em sueco, ou bósnio!, e ela não entenderia nada do que dissesse; roubar-lhe-ia a bolsa, as malas, todas as roupas, objetos, documentos, que estas continham: seria um estorvo; e ainda com sua sensualidade que os europeus encontram em toda e qualquer brasileira, podia até estuprá-la!
Pôs as mãos no puxador. Lutou puxando a enferrujada porta da cabine, porém suas mãos, duras de frio, não tinham força. Refletiu: era uma péssima ideia sair da cabine. Daí que ele a veria ainda mais claramente. Olhou novamente para o homem. Ele continuava a acercar-se. Agora saíra nitidamente da outra calçada e vinha em direção à cabine. O coração de Iara batia cada vez mais exaltado.
Teve a idéia de se agachar, sentar no chão. Vai ver ele achasse que nem tinha mais ninguém lá na cabine e fosse embora; Iara tentava pensar positivo. Estava mesmo frio demais. Encolher-se no chão, além do mais, seria uma maneira de se aquecer. De segurar os roncos do estômago também, já fazia umas oito horas que Iara não comia. E encolhida no chão, também podia tirar uma soneca. O cansaço da viagem eram pesos elefantídeos que suas pálpebras tentavam suspender.
Pôde ver o homem pela última vez a uns vinte e sete metros de si, antes de adormecer.
Acordou no outro dia no hospital ali perto. Tivera uma queda de pressão e fora atendida com uma forte hipotermia. Já parecia bem e teve alta no mesmo dia. Björn estava lá. Ele conseguira, não sei como, localizá-la naquele hospital. Seus pertences, ao lado de sua cama, pareciam intactos. Contaram-lhe que um vigia noturno das redondezas a havia socorrido. Às vezes, aparentes ameaças são verdadeiras salvações. Contudo, aconselho-te a continuar desconfiando.
Postado por Pedro Figueira às 6/03/2010 02:51:00 PM 1 comentários
domingo, 2 de maio de 2010
A Jaca
Zezinho pôs as mãos no galho mais baixo da jaqueira, deu um impulso com elas e, em seguida, sentou no galho os pés descalços. Subiu sem pressa, ramo a ramo, sem fazer muito barulho. Nem era preciso preocupar-se com o silêncio: àquela hora, a estrada do Barreiro estava vazia; ainda o sol procrastinava seu despertar; quem acorda cedo para trabalhar ainda dormia, no máximo, tomava o café no aconchego do lar. Zezinho estava ansioso, nem dormira direito durante a noite, que nem sequer tinha terminado. Era uma idéia tão brilhante que nem acreditava que fosse fruto de seu próprio intelecto.
A jaqueira estava carregada, justamente como Zezinho a vira no dia anterior. Não estavam as jacas assim tão maduras, mas Zezinho não queria esperar. Ele nem previra que poderiam suspeitar se as jacas não estivessem ainda quase podres de tão maduras. Não, aquela manhã era a manhã para a execução do seu plano. Se falhasse, não haveria outra chance. Agora era só conter o suor e a taquicardia até o momento oportuno.
Dez minutos se passaram; e Zezinho continuou esperando, sentando num galho grosso sobre a estrada, com uma jaca entre as pernas; quinze, vinte, meia hora, uma inteira. A hora certa não chegava nunca, apenas alguns peões e adolescentes indo para a escola, dos quais Zezinho se escondia entre as folhas da árvore, se encolhia e prendia a respiração ofegante, tornando-se-lhes absolutamente imperceptível.
Zezinho deve ter fechado as pálpebras um período ou outro, sempre acordando antes de cair da jaqueira. Segurava-se forte ao galho, toda vez que isso ocorria. Parecia que ele não ia chegar nunca; já passara pela cabeça de Zezinho descer da jaqueira e deixar seu plano para outro dia, mas logo pôde abandonar esse pensamento antes que o realizasse.
O sol já se inclinava ao ângulo das sete horas; Zezinho pôde notar; quando ele avistou a moto vermelha ao longe na estrada. Não avistou, aliás, ouviu o barulho ensurdecedor da moto sem escapamento. A adrenalina fluiu infinitamente rápido por seus vasos sanguíneos, como se a área da secção transversal da artéria suprarrenal tendesse a zero. A hora H chegou. Zezinho tinha certeza que era a moto de Wellington, e que era ele quem a conduzia naquele momento. A mesma jaqueta preta no corpo e o mesmo capacete amarelo na garupa com os quais Wellington sempre estava vestido. No seu serviço de motoboy ou pela cidade, Wellington até que usava o capacete, para não ser demitido ou multado; na roça, contudo, nem lhe passava pela cabeça vestir aquela peça quente e enfadonha. Com esse detalhe que Zezinho contava.
“Esse viado tarda mas num falha.” Pensou Zezinho naquela hora. O celular de Wellington devia ter esquecido de acordá-lo naquela manhã, concluiu, e, por isso, ele corria com tanta velocidade na estrada barrenta. Quando Wellington passou debaixo da jaqueira, a jaca acertou em cheio sobre sua cabeça. Desacordou. A moto vagou sem rumo mais uns dez metros, o bastante que ele caísse num barro pedregoso e batesse num muro, quebrasse uns ossos e rompesse uma quantidade considerável de veias na cabeça. A estrada estava vazia a essa hora de novo, todos que tinha que passar por ela já haviam passado e estavam agora na estrada ou na escola. Ninguém apareceu para socorrê-lo por umas três horas, até que uma tia qualquer que passava por ali achou seu cadáver jazido no chão e chamou-lhe em vão uma ambulância. O objetivo de Zezinho fora atingido com grande êxito.
Logo depois do arremesso da jaca, Zezinho desceu da jaqueira rindo para caramba. Olhou para Wellington desmaiado, contorcido e ensangüentado no chão. Zoou um pouco:
– Perdeu, motoboy. – E riu da cara dele com o maior prazer do mundo
No dia seguinte, Zezinho compareceu, como manda a boa etiqueta, no velório do colega. Enquanto todos choravam ou pelo menos se calavam tristemente de perder um jovem tão forte e belo que tivera o azar de ser atingido por uma jaca madura no percurso da labuta, Zezinho sorria por dentro um sorriso de orelha a orelha, esforçando-se muito para não deixá-lo transparecer por fora. Agora, Zezinho tinha o caminho livre de obstáculos para conseguir o que há tanto almejava.
Postado por Pedro Figueira às 5/02/2010 03:09:00 PM 1 comentários