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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Frio Sueco

Já passavam das vinte e duas horas quando Iara pôs os pés em terra. O frio do inverno sueco cortava a sua face, até então protegida pelo aquecedor que funcionava no navio. A cidade de Gotemburgo já estava adormecida; com exceções metropolitanas e espanholas, as cidades da Europa costumam dormir muito cedo, de modo que não houvesse mais nenhum comércio, restaurante ou boate abertos em Gotemburgo. Só refletiam na ainda tênue camada de neve as luzes dos postes, bem espaçados, pois não se avistava mais acesas as luzes de nenhuma edificação nas redondezas. Iara não tinha celular; naquela época, do início dos anos noventa, ninguém os tinha. Não foi preciso caminhar muitas quadras, a partir do porto, até encontrar uma cabine telefônica.

Embora um tanto duro de abrir, Iara insistiu em fechar a cabine. Estava frio demais. Qualquer fio de vento que adentrava a cabine era uma seta furando e fazendo arder sua pele, mesmo que quase inteiramente coberta. Os botões eram muito pequenos, mas Iara não podia se dar ao luxo de tirar fora as luvas: era frio demais, um gelo de gangrenar até as mãos mais nórdicas.

Tu... Tu... Tu... Ninguém atendia. Iara sabia que Björn, seu então namorado, tinha o sono pesado feito chumbo e temia que ele não acordasse para buscá-la. Ele morava em outra cidade; não havia condições para atrever-se a ir a pé. Percebeu que seu temor se concretizara quando a secretária eletrônica atendeu. Tentou mais umas quatro vezes e veio-lhe aos ouvidos a mesma voz robótica da secretária. Não entendia uma só palavra do sueco que ela sussurrava, além do “god dag”, que Björn já lhe havia ensinado, mas saber sueco não era o importante naquela hora; o sinal que soa após “deixe seu recado após o sinal” é um som universal.

– Hello? Björn? Please, get up as soon as you see your answering machine blinking. – Iara estava com muito frio para pensar no que dizer. – It’s Iara here. There were some bosnian in the ship, so... you know, the police interviewed one by one... Because I have dark hair, dark eyes, these things; they thought I was bosnian too. I had to wait for them to see my passport, tell them I was tourist, brazilian, I would stay in your house..., all that rubbish. At last, I’m here phoning you. – Iara, nesse instante, mudou seu tom de voz, aplicar nela um nervosismo explicitamente subentendido. Avistara ao longe na curta rua algo que a obrigava a acelerar o ritmo da pronúncia. - For God’s sake, come fast! It’s too cold, I’m too tired, I am hungry, I have no money! I’ll get back to the port and I’ll be there waiting for you, right? Bye, I love you.

Não se costuma ver alguém andando na rua àquela hora, mas era isso que Iara via. Um homem, cuja face não se via por causa da distância, cachecol e de seus pouquíssimos graus de miopia, se aproximava. Ela atemorizou-se. Só podia ser um assaltante. Falar-lhe-ia em sueco, ou bósnio!, e ela não entenderia nada do que dissesse; roubar-lhe-ia a bolsa, as malas, todas as roupas, objetos, documentos, que estas continham: seria um estorvo; e ainda com sua sensualidade que os europeus encontram em toda e qualquer brasileira, podia até estuprá-la!

Pôs as mãos no puxador. Lutou puxando a enferrujada porta da cabine, porém suas mãos, duras de frio, não tinham força. Refletiu: era uma péssima ideia sair da cabine. Daí que ele a veria ainda mais claramente. Olhou novamente para o homem. Ele continuava a acercar-se. Agora saíra nitidamente da outra calçada e vinha em direção à cabine. O coração de Iara batia cada vez mais exaltado.

Teve a idéia de se agachar, sentar no chão. Vai ver ele achasse que nem tinha mais ninguém lá na cabine e fosse embora; Iara tentava pensar positivo. Estava mesmo frio demais. Encolher-se no chão, além do mais, seria uma maneira de se aquecer. De segurar os roncos do estômago também, já fazia umas oito horas que Iara não comia. E encolhida no chão, também podia tirar uma soneca. O cansaço da viagem eram pesos elefantídeos que suas pálpebras tentavam suspender.

Pôde ver o homem pela última vez a uns vinte e sete metros de si, antes de adormecer.

Acordou no outro dia no hospital ali perto. Tivera uma queda de pressão e fora atendida com uma forte hipotermia. Já parecia bem e teve alta no mesmo dia. Björn estava lá. Ele conseguira, não sei como, localizá-la naquele hospital. Seus pertences, ao lado de sua cama, pareciam intactos. Contaram-lhe que um vigia noturno das redondezas a havia socorrido. Às vezes, aparentes ameaças são verdadeiras salvações. Contudo, aconselho-te a continuar desconfiando.

1 comentários:

Anônimo disse...

Adorei.......Este parece mais maduro e demonstra melhor sua cultura... continue sua imaginação é fértil