Zezinho pôs as mãos no galho mais baixo da jaqueira, deu um impulso com elas e, em seguida, sentou no galho os pés descalços. Subiu sem pressa, ramo a ramo, sem fazer muito barulho. Nem era preciso preocupar-se com o silêncio: àquela hora, a estrada do Barreiro estava vazia; ainda o sol procrastinava seu despertar; quem acorda cedo para trabalhar ainda dormia, no máximo, tomava o café no aconchego do lar. Zezinho estava ansioso, nem dormira direito durante a noite, que nem sequer tinha terminado. Era uma idéia tão brilhante que nem acreditava que fosse fruto de seu próprio intelecto.
A jaqueira estava carregada, justamente como Zezinho a vira no dia anterior. Não estavam as jacas assim tão maduras, mas Zezinho não queria esperar. Ele nem previra que poderiam suspeitar se as jacas não estivessem ainda quase podres de tão maduras. Não, aquela manhã era a manhã para a execução do seu plano. Se falhasse, não haveria outra chance. Agora era só conter o suor e a taquicardia até o momento oportuno.
Dez minutos se passaram; e Zezinho continuou esperando, sentando num galho grosso sobre a estrada, com uma jaca entre as pernas; quinze, vinte, meia hora, uma inteira. A hora certa não chegava nunca, apenas alguns peões e adolescentes indo para a escola, dos quais Zezinho se escondia entre as folhas da árvore, se encolhia e prendia a respiração ofegante, tornando-se-lhes absolutamente imperceptível.
Zezinho deve ter fechado as pálpebras um período ou outro, sempre acordando antes de cair da jaqueira. Segurava-se forte ao galho, toda vez que isso ocorria. Parecia que ele não ia chegar nunca; já passara pela cabeça de Zezinho descer da jaqueira e deixar seu plano para outro dia, mas logo pôde abandonar esse pensamento antes que o realizasse.
O sol já se inclinava ao ângulo das sete horas; Zezinho pôde notar; quando ele avistou a moto vermelha ao longe na estrada. Não avistou, aliás, ouviu o barulho ensurdecedor da moto sem escapamento. A adrenalina fluiu infinitamente rápido por seus vasos sanguíneos, como se a área da secção transversal da artéria suprarrenal tendesse a zero. A hora H chegou. Zezinho tinha certeza que era a moto de Wellington, e que era ele quem a conduzia naquele momento. A mesma jaqueta preta no corpo e o mesmo capacete amarelo na garupa com os quais Wellington sempre estava vestido. No seu serviço de motoboy ou pela cidade, Wellington até que usava o capacete, para não ser demitido ou multado; na roça, contudo, nem lhe passava pela cabeça vestir aquela peça quente e enfadonha. Com esse detalhe que Zezinho contava.
“Esse viado tarda mas num falha.” Pensou Zezinho naquela hora. O celular de Wellington devia ter esquecido de acordá-lo naquela manhã, concluiu, e, por isso, ele corria com tanta velocidade na estrada barrenta. Quando Wellington passou debaixo da jaqueira, a jaca acertou em cheio sobre sua cabeça. Desacordou. A moto vagou sem rumo mais uns dez metros, o bastante que ele caísse num barro pedregoso e batesse num muro, quebrasse uns ossos e rompesse uma quantidade considerável de veias na cabeça. A estrada estava vazia a essa hora de novo, todos que tinha que passar por ela já haviam passado e estavam agora na estrada ou na escola. Ninguém apareceu para socorrê-lo por umas três horas, até que uma tia qualquer que passava por ali achou seu cadáver jazido no chão e chamou-lhe em vão uma ambulância. O objetivo de Zezinho fora atingido com grande êxito.
Logo depois do arremesso da jaca, Zezinho desceu da jaqueira rindo para caramba. Olhou para Wellington desmaiado, contorcido e ensangüentado no chão. Zoou um pouco:
– Perdeu, motoboy. – E riu da cara dele com o maior prazer do mundo
No dia seguinte, Zezinho compareceu, como manda a boa etiqueta, no velório do colega. Enquanto todos choravam ou pelo menos se calavam tristemente de perder um jovem tão forte e belo que tivera o azar de ser atingido por uma jaca madura no percurso da labuta, Zezinho sorria por dentro um sorriso de orelha a orelha, esforçando-se muito para não deixá-lo transparecer por fora. Agora, Zezinho tinha o caminho livre de obstáculos para conseguir o que há tanto almejava.
1 comentários:
Li e achei um pouco violento mas gostei...continue vc escreve bem!
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