O Parque Três Marias acabava de ganhar quatro novas moradoras.
A crise mundial fechara, na periferia recifense, o Abatedouro Boi-da-Cara-Preta. Uma das trabalhadoras era Eliane, cujos anos já somavam trinta e cinco; a cara aprentava já uns cinquenta; os músculos, ainda uns vinte. Criava ela sozinha duas filhinhas gêmeas de dois anos, cujo pai as abandonara, e uma sobrinha de quinze.
Há muito que já pensava nisso, enquanto ainda estavam estáveis em sua terra natal: ir para São Paulo já era vontade há muito tempo. Não foi nada muito planejado, mas, ao aportar em Taubaté, Eliane acabou arranjando um emprego de doméstica e uma casinha bem simples; se é que se pode chamar aquele barraco de casa; dois cômodos: um banheiro e um quarto-sala-cozinha; para ela, as filhas e a sobrinha chamarem de lar.
Isso deu-se lá por janeiro, de modo que ainda deu tempo de Mariene, a sobrinha, matricular-se no Estadão. Mesmo ainda em Pernambuco, Mariene nunca deixou de estudar; tinha muitas dificuldades, porém era uma aluna razoavelmente aplicada para quem cuidava de uma casa inteira e de duas gêmeas pentelhas. Ela sabia que quem não tem educação não tem como subir na vida. Veja-se o exemplo de sua tia e sua mãe: quando elas vieram analfabetas do sertão para o Recife, nem quiseram saber de procurar um supletivo. Restou a Eliane ceifar as vidas bovinas e à mãe de Mariene vender o corpo a turistas europeus e a caminhoneiros em abstinência. Bem, é fácil adivinhar que foi por causa de um “acidente de trabalho” que Mariene nasceu.
No primeiro dia de aula, Mariene chegou naquela classe toda zoneada com vista para a Via Dutra. Não estranhou, já estava acostumada ao fuzuê da educação pública. Viu aquela infinidade de mais de cinquenta carteiras e cadeiras, muitas delas quebradas, com adolescentes papeando e brincando enquanto a aula não começava. Mariene vestia-se com a mais absoluta simplicidade; calça jeans, camiseta branca e all-star preto, tímida pelo primeiro dia, sentou-se numa cadeira vaga da primeira fila, como era seu hábito em Recife. Ela era uma mulata baixa e corpulenta; não tapava a vista de ninguém; exceto quando os seu cabelo bombril estava mais armado que de costume. Já tivera uns dois namorados no Recife, mas não podia ser considerada bonita; estava, com muita boa vontade, entre média e feia. Enquanto esperava, conversou com umas meninas perto de si: é bom começar novas amizades.
A professora chegou. Os outros alunos, aparentemente, se amansaram. Era aula de química. Apresentou-se e começou a chamada. Foi seguindo a lista toda normalmente; até o número 36.
– Mariana.
– É Mariene, professora. – Corrigiu; num tom perfeitamente educado. Mariene pecara foi em nem tentar esconder seu sotaque nordestino; aliás, não pecou em nada. Pôde ouvir um grupinho de piranhas gargalhando no fundo da sala.
– Vê se aprende a falar direito, sua baiana morta de fome.
“Não, eu não ouvi absolutamente nada lá de trás.” Mariene pensou com insistência ao ouvir aquela voz fina de taquara-rachada zombando de sua origem “baiana”. Ignorou a provocação; Mariene tentou ser racional e pacífica; sabia que um revide não levaria a nada. A educadora fingiu que não tinha ouvido nada; duvido mesmo que tenha; e continuou a fazer a chamada. Alienadamente, ensinou nos cinquenta minutos seguintes o que é um átomo e se foi. Mariene, pelo contrário, não pôde ignorá-la, posto que a cada minuto escutava a voz rir alto e ardidamente, com mais monte de vozes cortesãs ao fundo.
Sentada numa mesa do fundo da sala estava a dona da voz que ria com um monte de paga-paus em volta. Era Helena, uma morena super gostosa. Pela educação continuada, ela fora aprovada até o primeiro ano; mas ia à escola sem outro porquê se não o de sua mãe mandá-la. Para alguém com ela, Helena até que respeitava seus pais. Não hesitava em matar aula quando queria, porém não era assim tão sempre. Vinha sempre bem maquiada, sempre de top e shortinho curto, revezando entre o jeans e a alfaiataria; ou ainda às vezes de minissaia ou de blusinha. Quando estava frio, era sempre um jeans colado que tranparecesse as curvas das suas pernas; e aproveitava para usar biquíni por baixo do casaco; sem falar que nunca descia de um salto alto. Vivia cercada de súditos que riam de suas zoações e surravam quem ela tinha vontade. Assim como toda mulher bonita e esperta, Helena era companheira de um cara poderoso. Seu namorado era alcunhado Torresmo, um traficante ascendente no bairro. Ele já tinha quase trinta anos, mas... você sabe. Pelo tipo de gente que se trata, é plausível imaginar que Helena já havia posto alguns pares de chifres na cabeça de Torresmo. É também bastante plausível que Torresmo promovesse que tais amantes tivessem logo seu encontro com Deus. Não eliminou todos, porque eram mesmo amantes demais, dos quais os vingados eram só a ponta do iceberg.
As seis horas diárias de escola passaram a ser um inferno na vida de Mariene. Não podia escutar uma música no celular que comprara que Helena a chamava de excluída. Não podia conversar com outra menina que Helena a chamava de paga-pau. Não podia conversar com um menino que Helena a chamava de piranha. Não podia responder uma pergunta certa ou tirar uma nota alta que Helena a chamava de nerd. Não podia responder uma pergunta errada ou tirar uma nota baixa que Helena a chamava de burra. Sem falar que seus súditos sempre riam de suas caçoadas e humilhavam Mariene ainda mais.
Aguentou tal situação relativamente calma até meados de maio; teve um piti e alguns derramentos de lágrimas nesse caminho; estas aconteceram em casa bem escondidas, onde havia duas criancinhas e uma tia que não se importavam. Quando deu o piti, jogou tudo que estava a mão sobre Helena, o que só fez toda a sala rir dela e os capangas da Helena aplicarem-lhe um corretivo. Depois disso, tomou sua decisão.
Já se passavam quatro meses, não entendia como tinha suportado tanto tempo. Só se aproximavam dela para rir. Cambada de terroristas! Eram um caruncho podre que enfeiava a batata de sua vida. Caruncho, que até agora ela engolia passivamente, Mariene percebeu que deveria cortar. Fazia um bem para a sociedade: se não fosse ela, haveria outra em seu lugar, chorando sempre ao voltar para casa. E aqueles vagabundos estariam sempre pisando em cima dela, expremendo todo o sangue e seus gritos de dor, simplesmente porque achavam engraçado. Corja de psicopatas! Era preciso decepar o mal pela raiz!
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