Avistava-se o sol já vermelho refletido no rio, às sete da noite, na marginal do Tietê, parada; não como todo dia; mas como numa quarta-feira antes do Dia de Finados: um monte de paulistanos preparados para passar nove horas na serra dentro de um carro, como se valesse a pena, por uma praia lotada, chuvosa e fedorenta. Iam muito contentes por dentro, apesar de aproveitarem cada instante imóveis, que não são poucos, para xingar o motorista do carro à frente. Nesse turbilhão de alegria e estresse, incluía-se Fernanda, num ônibus, voltando para casa em Taubaté.
Fernanda aproveitara seu último dia de férias para passear em São Paulo com uma irmã que lá residia. Passearam no shopping pela manhã, chuparam sorvete, compraram maquiagem, almoçaram e viram muitas roupas, bolsas e celulares; e procuraram pelos respectivos similares à tarde na 25 de Março. Encontraram a maioria deles, inclusive um celular com wi-fi e televisão analógica que Fernanda aspirava há algum tempo. Compensou enfrentar a muvuca da capital paulista por ele.
Já fazendo uns vinte minutos da partida do ônibus da rodoviária, Fernanda encontrou-se ainda em frente ao Center Norte; concluiu que não chegaria tão cedo um quilômetro a frente, quem dirá em casa. Tirou a caixa do celular da sacola, e daquela o celular em si. Resolveu assistir o jornal, mas a bateria acabou antes mesmo de começar a novela. O jornal só falou do engarrafamento de mais de duzentos quilômetros em que estava inserida. Era angustiante. Suspirava umas três vezes a cada frase do repórter, sentiu até certo alívio quando o celular desligou. Esperou pacientemente um tempo, até dormir. Acordou depois de uma quase hora, ainda em frente a Corinthians.
Era melhor avisar alguém, deduziu. Seu pai logo pensaria que ela fora assaltada e não tinha dinheiro para voltar. Sua avó, então, pensaria que estava num hospital em Guararema repleto de acidentados de um engavetamento na Dutra. Sua mãe, nem se fala, pensaria que estava morta. Pensou em ligar para eles, mas queria falar com outra pessoa primeiro.
Pegou o celular velho e telefonou para o primeiro contato das últimas ligações, seu namorado. Ele não atendeu; não importa, não era uma ligação assim importante.
- Oi, gatinho, quem fala é a Fefê! Tô ligando pra avisar que eu vou chegar bem tarde hoje, daí eu vou direto pra casa e a gente se vê amanhã, viu? Você não acredita como tá trânsito hoje! Sabe, eu achei aquele celular com televisão que você queria. Eu tava assistindo o jornal agora: são mais de duzentos quilômetros de congestionameto! Tá um saco aqui, gatinho, mas amanhã a gente se vê. Te amo muitão! Tchau.
Desligou antes que desse um minuto de ligação. Ligou para sua casa, avisou da demora, e pronto. Quando adormecia, já algumas dezenas de metros frente, o telefone tocou. Era uma mulher, com uma voz um tanto raivosa.
- Boa noite, esse é o número da “Fefê”?
- Hã... – Achou estranho, só seu namorado a chamava de “Fefê” - Sou eu mesma, Fernanda.
- Minha filha, tô te dando um conselho: não quero mais nenhuma relação entre você e o Dalton. – Fernanda ficou confusa: ela não conhecia Dalton nenhum.
- Mas quem é...?
- Ele é MEU marido. – A esposa a interrompeu. – EU cheguei primeiro, e num vai ser uma fulaninha qualquer que nem você que vai tirar ele de mim. Não quero mais você falando com ele, nenhuma ligação, nenhum MSN, nenhum e-mail, nenhum torpedo, capisce?!
Fernanda achou melhor continuar o jogo dela, respondeu que sim, assim ela desligava logo. Ela não tinha nada a ver com isso; além do mais, o que aquela ciumenta doentia que ela nem conhecia podia fazer?
- Bom mesmo. – A mulher respondeu. – Você não sabe do que eu sou capaz. Adeus.
“Que paranoica!” Fernanda pensou “Coitado do marido dela!”
Resolveu ouvir um pouco de música em seu MP3. Depois de um tempo pensando em sua história curiosa, percebeu que havia esquecido do 0xx12 na hora de ligar para seu namorado. Fora só um engano, do qual já podia tirar algumas risadas.
Depois de um tempão, quando o ônibus já passava no pedágio de Arujá, seu celular tocou de novo.
- Oi, esse é o celular da Fernanda?
- Eu mesma.
- Aqui é o Dalton, doçura. De onde que a gente se conhece mesmo?
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