Já não era tão cedo no domingo de manhã quando Henriques e seu neto saiam do supermercado do bairro. Era julho, fazia sol, mas estava bastante frio; todo mundo devidamente encapotado no estacionamento. Haviam feito as compras da semana; arroz, alface, papel higiênico, sabão em pó..., além de umas bolachas e chicletes para o Guilherme, o neto; supermercado com avô tem sempre uma guloseima. Guilherme tinha então treze anos, veio de São Paulo passar as férias com seus avós, onde, além do mais, o resto da família morava. Depois que Henriques pagou, Guilherme passou dirigir o carrinho, enquanto seu avô o conduzia à sua frente, ajudando-o a desviar dos carros; apesar de não haver muitos para esbarrar. Henriques estacionara seu brasília de bunda para a outra vaga, a fim de facilitar a saída. Sorte que, quando voltaram, ainda não havia nenhum carro estacionado atrás, o que facilitaria muito a colocação das compras no porta-malas.
Enquanto Henriques punha um saco de ração no carro, eis que surge um palio cobiçando a vaga de atrás. Não estacionava nela, como dito, pois o carrinho de Henriques a ocupava. O palio buzinou.
- Vô, o cara tá querendo a vaga de trás.
- Espere, por favor. – Pediu Henriques a motorista, com a máxima polidez, sem nem desviar o olhar do serviço.
A buzina tocou de novo. Henriques olhou para trás, reconheceu o motorista, suspirou e leventou uma sobrancelha. Continuou a colocação, e murmurou para Guilherme:
- Ah, esse daí... ele que se foda.
O motorista irritou-se. Percebendo que os dois não se moveriam até terminarem, ele foi jogando o carro devagarinho para cima da vaga. Foi lento e silencioso, de modo que Henriques e Guilherme não reparassem até o corsa relar no carrinho e o carrinho, por sua vez, arranhar a trazeira do palio que Henriques comprara ainda esse ano.
- Porra, Macedo, seu filho da puta, o que que você tá pensando?! – Henriques gritou furioso.
- É pra ver se você não a tomar mais o meu lugar, Henriques. – Macedo declarou na calma mais sarcástica, depois de extravasar sua raiva no palio.
Macedo e Henriques eram vizinhos, inimigos há muito tempo, e por uma série de motivos. Macedo roubou de Henriques uma namorada. Henriques, de Macedo, roubou-lhe a esposa. Macedo, no emprego da fábrica, puxou de Henriques o tapete. Henriques, recuperando-se, comprou um terreno, por infortúnio, ao lado da casa de Macedo. Até aí, só se evitavam; mas logo começaram as mas diversas picuinhas: “o Macedo fica ouvindo música alto até tarde da noite!”, “o esgoto do Henriques tá sempre vazando, é um fedor!”, “a árvore do Macedo vai cair em cima do meu muro, e entope toda a calha!”, “mas essa brasília barulhenta do Henriques, me dá asma!”... Sem contar que os respectivos cães só defecavam em frente à porta do outro.
Nada dá mais raiva que um inimigo sarcasticamente calmo. Agora que as veias de Henriques se dilataram com o volume sanguíneo e saltaram-lhe pela careca. Quase estourou a caixa de leite que segurava, de doze litros em longa vida; enquanto pensava em uma resposta. Mas não achou. Terminar sem revide significaria perder. Jogou os doze litros sobre Macedo. Este tentou desviar-se, porém recebeu-os num ombro. Sobre o leite derramado no chão Macedo proferiu, ou melhor, gritou, derrubando-se toda a força da calma:
- Vai tomar no cu, você tá louco?! – E meteu-lhe o punho na face enrugada. E Henriques esmurrou-lhe a barriga, e Macedo chutou a bunda, e Henriques deu um pontapé na canela, e Macedo empurrou-lhe o carrinho sobre a pança... Até terminarem os dois rolando pelo chão, todos sujos de asfalto e sangue.
Henriques terminou por cima, havia acabado com toda sua raiva; vitória! Socou mais uma vez o queixo de Macedo com sua mão dolorida antes de olhar ao seu redor. Funcionários e algumas tiazinhas assistiam, absortos e preocupados. Alguns, mais egoístas, passavam quase tapando a cara de vergonha da quela cena. Guilherme e mais um bando de moleques, e inclusive um bêbado, que estavam ali perto, os assistiam, torciam e faziam apostas. Henriques levantou-se, guardou as compras no porta-malas o mais rápido que seu sessenta e três anos permitiam; puxou Guilherme pelo braço, fê-lo entrar no carro e partiu, vexado por sua petética versão de Street Vale-tudo Sênior.
Ao partirem, Guilherme declarou animado:
- Nossa Senhora, o meu vô é muito foda! O senhor bateu pra caralho hoje, hein vô?
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