Foram uma manhã de quarta-feira o dia e a hora planejados por Mariene para a realização de seus planos. Marcou o despertador para vinte minutos mais tarde, e se arrumou com se não estivesse atrasada. Chegou atrasada de propósito, pulou o muro para entrar. Ouviu do lado de fora; sua classe tinha aula de inglês, como planejado. Escolhera este dia principalmente porque essa professora era uma velha metida e porque seu aparelho vocal simplesmente não se adaptava a esse idioma chato cheio de vogais indefinidas, consoantes cuspidas e R’s puchados.
Chegou à porta de da classe. Nem me pergunte onde nem com quem ela arranjou um revólver, mas ela tirou um de dentro da mochila e entrou.
– Todo mundo pra parede! – Berrou com toda sua raiva e força. Como uma manada forte e numerosa de búfalos, os mais de cinquenta adolescentes e a velha metida acataram covardemente as ordens da leoa. Apertaram-se contra as paredes e contra si, tremendo de medo de uma baixinha com uma arma de fogo.
– Mariene, não faça nenhuma besteira. – Suplicou a professora. – Pelo amor de Deus, seja boazinha e largue essa ar...
– Cala a boca, sua velha filha da puta! – Interrompeu-a com ira. Voltou o olhar de volta aos colegas. – Vocês pensavam que iam sair assim, impunes?! Eu vim aqui pra São Paulo, me livrar daquela miséria de Pernambuco. Mas o que eu encontrei?! Vocês, seus escrotos, medíocres, seus merdas de jegue com lombriga, vocês fizeram desses quatro meses que eu morei nessa porra dessa cidade os piores quatro meses da minha vi...
– Calma, Mariene. A gente não sabia que você ia ficar assim bra... – Tentou conciliar Leandro, um menino que ela nem lembrava que existia, mas que ela odiava da mesma maneira que todos. Mariene interroumpeu-o brutalmente.
– Eu mandei vocês todos ficarem quietos! – Mariene esgoelou freneticamente. – Agora nem vem querendo pedir desculpa! Vocês pensam que eu sou retardada?! Se eu perdoo, eu sei que vocês vão voltar a atazanar a minha vida. Eu faço um bem pra a humanidade exterminando vocês, seus vermes! Vocês já foram longe de mais, agora não tem mais volta. Rezem o máximo que vocês conseguirem, vocês têm uma dívida grande demais com Deus.
Nesse intante, eis que surge um sussurro de um espírito amigo que amolece o coração de Mariene. No frenesi da escolha de sua primeira vítima, Mariene bate o olho em Bianca, uma menininha branquinha, fraquinha, mirradinha; ela até que era legal, não zoava muito Mariene. Falou algumas vezes com ela; tinham bastante em comum, o bastante para serem amigas, se não fosse pela segunda razão do décimo terceiro parágrafo. Bianca não precisava morrer hoje.
Mariene coçou a testa:
– Pensando melhor, – Apontando a arma para Bianca. – Bianca! Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Chamou-a com a mão do revólver, e mandou encostar na outra parede. Bianca obedeceu, ficou lá na parede sem fazer nada, tremendo de medo da chacina que presenciaria. – Agora vocês vão ver só, seu bando de tripa de bode com lavagem!
E mirando nervosamente o revólver em alguém, Mariene por acaso deu com a vista em Orlando, ou Haroldo; alguma coisa assim, ninguém lembrava direito. Era um moleque alto, timidozinho, mais mudo que uma pedra, com quem até Mariene nunca falara direito, nem ninguém. O garoto estava impressionantemente calmo para quem está prestes a morrer. Talvez ele tivesse algum grau de autismo, que, por negligência da família e da escola, nunca fora diagnosticado. O fato é que esse menino que ninguém sequer lembra o nome também nunca fizera mal a ninguém; ele não precisava morrer hoje.
– Hei, Arnoldo. – Do mesmo modo, mirou-lhe o revólver. Não havia nenhum Arnoldo na classe, porém ele sabia que se tratava dele mesmo. – Venha pra cá também. Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Os colegas que estavam próximos, por caridade empurraram-o para fora do amontoado. Mariene conduziu-o até a parede onde Bianca permanecera e voltou a sua mira nos agora menos de ciquenta alunos mais a velha metida.
Todavia, como das outras vezes, o espírito do bem a guiou a perdoar seus colegas e um a um ela os foi passando para a outra parede. Depois do garoto, foram absolvidos a Joana, a Emily, o Edílson, o Robson, o Malcon, a Joice, a velha metida.... até sobrarem apenas a Helena e mais quatro de sua laia para morrer.
O coração mole de Mariene a levava a matar apenas quem realmente devia. Olhou de novo os condenados e proferiu:
– Eu sou mesmo muito boazinha, né? Mas, vocês cinco, ah! , vocês não têm escapatória.
Direcionou a arma bem na direção de seu maior alvo, Helena, aquela bruxa maldita. Mirou bem; não podia errar; sabia que todo mundo correria depois do primeiro disparo. Ouviu-se um bum por todo o Estadão e o piso da sala sujou-se de sangue e líquido cefalorraquidiano.
– Chega de palhaçada!
Na porta da sala, aparecera Torresmo, salvando a vida de sua amante e suas amigas. Abraçou forte Helena, a quem, por mais que odiasse, queria.
– Tá tudo bem com você, gata? Quando eu soube do que tava acontecendo, fiquei com tanto medo que você morresse!
Beijaram-se nervosamente, e olharam para o cadáver de Mariene estirado e ensanguentado no chão.
– Ah, gato, esse menina é pirada.
Algum dos salvos da outra parede tivera a brilhante ideia de mandar uma mensagem para Torresmo; no fundo, todos sabiam que a diretoria ou a polícia não resolveria nada. Bateu o sinal; apareceu o professor de álgebra e tiveram aula normalmente. Nenhum aluno da sala comentou nada durante a aula, mas trataram de espalhar bem o ocorrido no recreio, e ainda mais depois da aula no Orkut. Quanto ao corpo de Mariene, a faxineira deu conta disso mais tarde.
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