Havia um arquipélago perdido no meio do mais longínquo dos oceanos, a dezenas de quilômetros de qualquer outra massa de terra. Nelas, Deus semeara grandes pinheiros e abetos, onde passarinhos e esquilos faziam morada; cobrira de seixos praias onde pinguins e focas se fartavam no verão; esculpira imponentes montanhas onde salpicava a neve em todas as estações do ano; nas águas, pincelara correntes amenas que traziam os cardumes mais abundantes de todos os mares do planeta. O testamento de Adão legara esse pequeno número de ilhinhas a um povo privilegiado, não mais que cem almas viventes, que habitavam uma aldeia na foz de um rio gentil.
Era um povo que fazia por merecer sua Canaã. Eram muito trabalhadores, humildes e fraternos; amavam-se um ao outro tal como amavam a si próprios. Honravam a seus deuses e aos mais velhos, ouvindo sempre os conselhos tanto destes quanto daqueles. E eram recompensados por isso: nunca lhes faltara peixe para comer, pele para vestir, nem lenha para se aquecer. Viviam em amplas igualdade e fraternidade, numa harmonia comparável à celeste.
Numa tarde fria de verão, via-se sobre um pequeno rochedo no mar calmo um garoto no auge de sua adolescência; nem dezesseis anos, com certeza. Pescava, já fazia horas; com ausência de vento e ondas para incomodá-lo, continuava persistente e indiferente.
Pensava numa virgem, sua compatriota, obra-prima da divina criação. Os olhos dela, escuros e reluzentes, lembravam o mar à luz da aurora enluarada. Tão sorridente que não havia quem não se encantasse com seu semblante delicado. Sempre a via colhendo água às margens do rio; de torso nu para não se molhar, franzindo o cenho graciosamente com o peso do balde. Também a encontrava às vezes catando nozes na floresta, cantarolando tal qual um anjo; ele dizia-lhe não mais que um cumprimento tímido, o qual ela sempre retribuía com o olhar mais meigo, aconselhando-lhe cuidado com as orcas. Ele a desejava, mas do que qualquer coisa no mundo. Disfrutar dela todo o prazer do corpo e o amor do coração, casar-se com ela. Daria uma boa esposa, tinha certeza disso, posto que era obediente para com seu pai, patriarca da aldeia; e linda, mais linda que qualquer flor que nascera no Éden; o que todos os outros jovens da aldeia certamente já haviam percebido.
Quando dera por si, estava sentado sobre a pedra prestigiando as luzes austrais. Já se via o sol quase no horizonte, deveria regressar. Tinha umas boas quatro tainhas no cesto, que, esperava, matariam a fome de seus irmãos naquela noite. Sentiu o cabelo no rosto, a brisa terrestre que começava a soprar.
Num segundo, a tranquilidade se desfez. Quem dera não tivesse divagado tanto e se ativesse à pescaria; teria havido uma chance quem sabe; mas agora não havia mais tempo de fugir. Uma baleia assassina emergiu, com sua grande boca cheia de dentes prontos para dar fim ao frágil hominídeo. A vida humana e todos os seus sonhos se desfariam no menor átimo de desatenção, transformando-se apenas em insignificante subsistência ao corpo do animal predador.
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