Era dia de semana, uma manhã outonal. Os carros e as pessoas tentavam se locomover no trânsito apertado. Todo mundo estava distraído: toda a atenção estava voltada aos relógios de pulso, aos letreiros de ônibus, às bugigangas nas lojas de um e noventa e nove. Os transeuntes da cidade escutavam, sem se ater, a poucos ruídos: arrulhos de pombo, máquinas de senha, conversas alheias, fones de ouvido, xingos de trânsito, buzinas de carro, autofalantes anunciando a promoção na ótica. Do nada, o silêncio barulhento teve fim.
Cortou o ar quente e fuligento um pentagrama; repleto de mínimas, semínimas, colcheias e claves de sol. Uma canção aguda e alegre despertava a atenção e a curiosidade de quem passava. De onde ele vinha?
De repente, a moça que vendia celulares viu, à frente da loja, um rapaz tocando flauta. Era daí que a canção saía. O rapaz caminhava, com a flauta à boca, tocando uma após a outra as canções que conseguia lembrar. Não se importava em tocar canções famosas, não se importava em tocá-las inteiras, não se importava em cometer erros. Não tinha vergonha: era um rapaz andando e tocando flauta no meio da rua. Quando errava ou esquecia o resto de uma ária; silenciava-se, por não mais que três passos, e logo voltava a tocar ou a mesma ou outra que lhe recordasse e parecesse mais bela. Rodeava o flautista uma aura irresistível. Não havia quem não se distraísse de seu serviço, pelo menos enquanto o flautista estava próximo, com sua música contentadora. Tinha até um ou outro que se envergonhasse por estar em sua aura musical (afinal, ele era um rapaz andando e tocando flauta no meio da rua); a grande maioria, pelo contrário, olvidou seus problemas por um curto instante e se deixou levar pela aura do flautista. A cidade não era mais só barulhos selvagens; era música, música alegre, música edificante de instrumento divino.
E o flautista prosseguiu com suas canções até seu destino; tocando sua flauta e o coração dos ouvintes. Não se sabe o que pretendia encantar: ratos, baratas, mendigos, crianças ou virgens; mas o fato é que ninguém o seguia. Ele era só um homem tocando flauta no meio da rua.
0 comentários:
Postar um comentário