O jovem de não mais de dezesseis anos tomara uma decisão.
Apesar dos apelos de sua esposa, no dia seguinte ele saiu bem cedo. Enchera o cantil e pusera numa sacola pão e carne seca. Com certeza teria fome, pois subiria até o topo da montanha mais alta da ilha. Tinha como objetivo, logicamente, encontrar o eterno Nirândri, o mais velho de todos os homens, que vivia no alto dela.
O jovem deu um beijo de despedida em sua mulher e partiu para sua jornada. Passou pelo bosque costumeiro, cujo chão estava um carpete de margaridas. Borboletas cruzavam-lhe o caminho de vez em quando, pousando nas flores para lhe desfilarem suas asas coloridas. Esquilos tímidos atravessavam docemente galhos sobre sua cabeça, tendo o canto dos pássaros como trilha sonora. Aproveitou para recolher uns gravetinhos, caso quisesse fogo. A beleza da floresta o inspirava a seguir. Deus fizera o mundo lindo demais para se desfazer dele.
A trilha foi seguindo até o mato crescer demais e as árvores começarem a rarear. O rapaz viu-se então num imenso descampado. A grama reluzia feito ouro à luz do sol do começo da tarde. Ao longe, ele podia ver a imponente montanha a qual escalaria. O jovem caminhou pouco menos de duas horas através do campo, abrindo caminho através do capim amarelo. Encontrou ratinhos simpáticos escalando e escorregando as gramíneas à mercê do vento fresco. Uma ou outra graciosa andorinha passou pelo céu enquanto ele estava olhando. Quando um riacho cruzou seu caminho, ele aproveitou para recarregar seu cantil, lambiscar seu lanche e tirar uma soneca na relva molhada, embalado pelo balido das cabras. Se naquele instante um raio o partisse ao meio, pensou, morreria feliz...
Morrer feliz?! Pra morrer é melhor sentir a necessidade! Sofrer, chorar, gemer, padecer, amargar; ver a vida como um mar de angústia, mesmo que se tenha acabado de cair nele; e ver a morte como boia salvadora, como fim do suplício. Não! , os felizes não querem morrer!
Por isso, era imprescindível encontrar o Nirândri.
O garoto acordou, recolheu seus objetos e seguiu viagem. Andou várias horas até o terreno começar a se inclinar. Foi anoitecendo, e foi chovendo uma chuva fraca e incômoda, e esta aumentando gradativamente. Ele, então, encontrou ao pé da montanha uma conveniente caverna para abrigar-se. O frio dos mares austrais se fazia sentir dentro da caverna, ainda que bastante atenuado. Uma fogueira, portanto, foi extremamente necessária para se secar e se aquecer.
Comendo seu pão e sua carne seca, o rapaz pôs-se a pensar no dia que viria. Estava exausto, sentia uma preguiça terrível. Subir uma montanha umas mil vezes mais alta que ele no dia seguinte? Não parecia valer a pena. E que garantia ele tinha? Quem garantia que o Nirândri estaria disposto ajudá-lo? Quem garantia que ele ainda estaria em cima da montanha depois de tantos anos? Afinal, que o menino soubesse, ninguém mais fora procurá-lo. Quem mesmo garantia que viver para sempre era possível? Que fim não fosse certo? Quem garantia que os Deuses simplesmente não se enjoavam de ver um velho perambular pelo mundo por mais de meio século e lhe tiravam a vida? Seu recente sogro, patriarca da tribo, porta-voz das Divindades? Não acreditava que ele aguentaria mais dois invernos. Aliás, outro cacique havia morrido antes do atual, lembrava-se disso; e com certeza outros morreram antes de seus sucessores; e decerto muitos ainda se tornariam caciques e morreriam antes dos Deuses revelarem o segredo da imortalidade.
Seus pensamentos mórbidos o conduziram a um sono pesado e revigorante, que reconstruiu seus músculos e lhe deu fôlego, a terminar já no meio da manhã. Voltar? Já andara tanto até ali! Antes de anoitecer teria a companhia do velho Nirândri, tendo-o como mestre, aprendendo com ele a arte da virtude absoluta. Morte certa era uma ideia absurda; em seu vilarejo, havia quase cem pessoas vivas que podiam provar o contrário; e quantas mais existiriam no mundo?! E ele seria uma delas! , porque subiria a montanha e encontraria o sempre vivente Nirândri!
O menino abandonou a caverna e prosseguiu com sua marcha. A montanha, diferente do campo, tinha ainda os resquícios do que devia ter sido uma trilha. Havia, contudo, partes em que esses resquícios simplesmente sumiam: buracos, becos sem saída, ninhos de condor bloqueando a passagem. Nesses casos, fazia como os cabritos: pulava, subia pelas paredes ou achava outro caminho para seguir. Ao longo do dia, cansou-se bastante. Foram precisas muitas pausas, mas continuou ávida e ofegantemente até o cume, onde o garoto encontrou o propósito da viagem.
No alto da montanha, primeiramente, ele teve a deslumbrante vista de sua vila, das casas de todo mundo que conhecia, de todo caminho que havia percorrido, do infinito mar azul-marinho, das fragatas voando e de todas as ilhas pelas quais o arquipélago era formado e cuja existência ele nunca imaginara. Suspirou. Era tão magnífica a obra de Deus que o garoto nem bem notara que, no meio no pequenino platô nevado, havia um velho deitado no chão.
O menino chegou mais perto e ajoelhou-se, perguntando:
- Sois vós o famoso e sempiterno Nirândri, cuja vida é sem fim, cujo coração é repleto de virtude, que é tão benquisto pelos Deuses?
O velho nada respondeu.
- Sois o Nirândri? Imploro-vos, dizei-mo! – Insistiu o garoto humildemente.
Mas resposta nenhuma foi ouvida.
O jovem resolveu imitá-lo: deitou ao seu lado, mirando o céu. O velho deitado no alto da montanha só podia ser o Nirândri. Se o Nirândri não falava, emitir qualquer som devia ser um ato vicioso. Ficou algumas horas assim, deitado, sobre a neve gelada e sob o céu sem nuvens. Óbvio que, passado algum tempo, começou a sentir o frio da neve nas costas e o ardor do sol na barriga. Cansou-se. Adotou uma postura mais enérgica.
- És o Nirândri ou não?! Diz-mo já! Se não és, onde está ele?! – O garoto ajoelhou-se novamente, e gritou bem alto no ouvido do ancião.
E, de novo, de sua boca não saiu uma palavra.
- Responde-me logo, velho arrogante! – O garoto se irritou, pegou o Nirândri pelos ombros e pôs-se a chacoalhá-lo.
O toque da pele do Nirândri, de súbito, repeliu o as mãos do executor da orca. Era tão gelado quanto a neve do chão. Enrugado, seco, que nem o couro de seu cantil. Ossudo, magérrimo; não devia comer a dias, ou meses, ou anos! O jovem, então, tomou coragem e levantou-o novamente; embora fosse frágil como um idoso, ainda era duro como uma estátua, inanimada, esquecida há várias eras no alto da montanha. Averiguou melhor a face do ancião: os olhos e bochechas, tão murchos e tristes, irradiando tanto arrependimento. O rapaz jamais imaginara o Nirândri tão árido e escuro, e tão... cadavérico!
Se aquela era a eternidade de que o cacique tanto falara, o garoto viu seu problema sem solução. Arrastaria sua esposa para aquele cume, onde permaneceriam indefinidamente jazidos no frio da neve e no calor do sol; tornando-se gelados, enrugados, secos, ossudos, magérrimos, frágeis, duros, escuros, áridos, murchos; tão tristes, tão arrependidos e tão cadavéricos quanto o Nirândri, que os acompanharia pelo resto da eternidade. E durante o tempo infinito, não falaria mais com seus amigos do povoado; não veria sua família nem nenhum de seus compatriotas; não teria filhos; não expressaria seu amor por sua mulher, mesmo que fosse tê-la para sempre a seu lado; nem a veria mais, nem sua querida aldeia, nem as praias, nem os bosques, nem as flores, nem os pássaros, nem as borboletas; só veria, doravante, o céu sobre si, o sol, a lua e as estrelas na escuridão. Não usufruiria mais de nenhum prazer, nenhum mesmo, dos gozos mais mundanos aos mais espirituais.
Na eternidade em que se encontraria, refletiu, boia da morte seria assaz bem-vinda.
O menino, então, vestiu novamente sua pele de foca e permaneceu sentado, olhando para o chão. E se a felicidade, mesmo sem o impedimento da morte, não fosse eterna? As Divindades, que num estalar de dedos lha deram, num outro poderiam arrancá-la dele. Já tivera glórias antes, e antes também já sofrera. Quando menos esperasse, Elas poderiam mandar discórdias, enfermidades, vergonhas, tragédias e malefícios de todo tipo para perturbá-lo. E, a medida que a idade avançasse, Elas se tornariam cada vez mais sádicas; ficaria velho, fraco e carrancudo, teria dores e ofegaria sem motivo, como tantos velhos de que se lembrava; a ponto que um dia, a Morte lhe apareceria, mostrando sua face maternal, e o levaria para longe do sofrimento.
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