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domingo, 15 de janeiro de 2012

A Eternidade, 3º Capítulo: Homens e Baleias

Na manhã seguinte, o rapaz acordou com o canto dos bem-te-vis à entrada de sua cabana. O sol, já alto no céu, incidia numa distante superfície do chão; a claridade, contudo, se estendia por todo o aposento. Ele virou de lado, na tentativa de protelar seu despertar, e deparou-se com a face angélica da mulher que sempre desejou, sua esposa consumada, a dormir ao seu lado. Sorriu. Não se lembrava de alguma vez na vida ter comido de uma carne tão suculenta, nem de ter bebido de um licor tão doce, nem de ter escutado uma música tão canora. Nem de sobreviver a uma morte tão certa, nem de receber comparável glória, nem, com toda a certeza, de possuir, para o resto da vida, mulher tão doce e dedicada, tão cobiçada por todos e infinitamente amada por ele. Os Deuses, imaginou, não poderiam ser mais generosos.

O jovem levantou-se. Beijou a bochecha de sua mulher, que, com isso, acordou suavemente e lhe desejou bom dia. Ele respondeu a ela com o maior entusiasmo que já imprimira em um cumprimento. Antes mesmo de se vestir, saiu à porta de sua cabana; a fim de contemplar a natureza celeste; ouvir o barulho das ondas; respirar a fresca brisa matinal, perfumada de lavanda, e expirar com ela um pouco de seu júbilo, compartilhando-o assim com o resto do mundo. Não foi esse, entretanto, o fino aroma que o garoto sentiu.

Ao nariz dele, ao invés, chegava um cheiro pútrido de carniça. Urubus e gaivotas pairavam sobre o povoado, descendo quando lhes vagava espaço e ascendendo quando se enchiam a barriga. De quê? Ora, dos restos mortais da baleia orca, no momento só um amontoado de tripas, ossos e cartilagem. Às aves, também se juntavam nuvens de moscas e tapetes de ratazanas, chafurdando no que outrora trouxera tanta alegria ao jovem de não mais de dezesseis anos.

E aquela cena o conteve durante algum tempo. O fedor, a infiltrar seu cérebro, o fazia pensar. A pobre baleia; como ele, que pescava; apenas buscava seu alimento em uma criatura inferior; e, contrariando todas as expectativas, foi assassinada pelas mãos de um homem. E se ela tivesse, como ele, conseguido uma grande honra para sua manada? E se tivesse, por exemplo, matado uma colossal fera devoradora de baleias? E se toda sua manada lhe fosse grata, e se tivesse podido desposar a fêmea mais bela e mais querida de seu povo? E se estivesse feliz! , infinitamente feliz! , igual a seu assassino, quando sua vida foi ceifada de um modo tão inesperado?

– Que olhas, amado marido? – Perguntou a esposa, rompendo seu raciocínio, a abraçá-lo sensualmente pelas costas. – Fiz-te compota de framboesas.

– Coitada da baleia. Tão forte e medonha; morta por um homem tão insignificante!

– Não te culpes, é presente das Divindades! Sabes disso.

– Não é esse o problema. – Ele contrapôs com um tanto inquieto. - E se um dia formos nós presente de outrem? Se, por acaso, eu for, ou tu fores, ou nós dois formos entregues a ínfimas formigas, como regalo dos Deuses? A ruína da alegria por mero capricho divino! Já pensaste nessa possibilidade?

– São poucos que recebem Deles a nossa sorte. – Reconfortou-o meigamente, enquanto lhe roubava um beijo. A imagem da baleia, porém, já havia ascendido lâmpada sobre cabeça dele.

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