Naquela noite, a aldeia encontrava-se em êxtase; em especial o rapaz de não mais que dezesseis anos, o qual triunfou sobre a temível baleia orca.
Era inacreditável seu feito. Num instante fazia castelos calmamente à beira do mar; no outro, sua lança furara resplendorosamente o crânio da baleia assassina; seus músculos bravios mil vezes mais ágeis que seu cérebro lerdo. A besta morrera, ao passo que pouco mais de meia dúzia de arranhões marcavam seu corpo. O que foi simples, súbito e particularmente aterrorizante, logo se transformou em glória e orgulho diante de toda a tribo. Voltara correndo logo depois da execução, ainda em estado de choque; e contara seu feito para alguns aldeãos seus amigos. Custaram a acreditar em sua história, mas conseguira convencê-los. Ele e mais cinco regressaram ao leito de morte da gigantesca baleia; e, com muito esforço, arrastaram-na todo o caminho de volta à tribo.
Quando chegaram, imediatamente, todos os camponeses largaram seus afazeres e se aproximaram para ver o corpo inerte da fera, em meio a suspiros e interjeições. O cacique apareceu de sua cabana, rogando ao povo abrirem-lhe passagem. Examinou o monstro de cabo a rabo, cutucou a lança cravada na cabeça, analisou nela os desenhos e as inscrições. Como patriarca da aldeia, ele sabia das armas de todos seus compatriotas; e ao analisá-la pôde ter certeza de que a lança era dele, a do menino de não mais de dezesseis anos.
Foste tu? – Acusou, dirigindo-se ao garoto. – Foste tu o executor desta horrenda besta dos oceanos?
Sim. – Ele respondeu respeitosamente, de cabeça baixa para o ancião.
O patriarca pigarreou. Então, falou alto, para toda a aldeia.
Matar este demônio marinho é uma prova de coragem jamais realizada por nenhum outro homem. Este rapaz proporcionou uma grande honra aos Deuses e Eles se rejubilam disto. Devido a sua enorme virtude, os Deuses, tão generosos como só Eles são, presenteiam toda a nossa tribo com a fartura desta baleia assassina. Essa é uma noite de festa, ó meus filhos! Abramos os tonéis de doce licor e assemos a baleia!
E respondeu-se ao chefe com os mais sinceros brados de alegria e orgulho de pertencer à tribo do fiel executor do monstro preto e branco.
As festividades, então, percorreram várias horas da noite. As estrelas o céu puderam observar de vários ângulos os aldeões dançando em volta da fogueira, ao som festivo dos tambores e das cítaras. O povo se fartou da carne e se embebedou do licor de cogumelo. Era uma alegria generalizada. Durante a toda noite, o jovem teve a chance de ser parabenizado por sua bravura e força por todos os habitantes da tribo. Todas as moças do povoado quiseram dançar com ele, e lhe foi um deleite cada uma das danças; com exceção de sua amada. Não a vira mais desde o começo da noite.
Dado instante durante as celebrações, a música parou e o cacique levou a mão do garoto ao alto. Tomou a palavra:
– Se os Deuses honraram nossa tribo com tão vigoroso presente, é justo, e vontade Deles! , que o homem que o conseguiu seja o mais honrado entre todos nós. Seus braços foram prestativos à provisão da aldeia e seu coração valente é nobre para conosco, segundo Eles! Será a mão de minha filha; ela, flor mais perfumada e estrela mais brilhante dos céus; sua honra e seu regalo, ofertada em nome das Divindades.
Abriu-se, então, caminho por entre o povo contente. Vários suspiros ecoaram no vilarejo, vindos de todas as bocas, ao se avistar a princesa; mais maravilhosa do que qualquer aldeão se lembrava. Foi em direção ao garoto que matara a orca, ornada das mais coloridas penas e flores e olhos negros tão lustrosos como ele jamais vira enfeitar sua face. Suas mãos, macias como a neve cadente, pegaram as dele, enquanto eles se encaravam, e se sorriam, fazendo de cada um daqueles quatro olhos um universo sublime.
– Os Deuses abençoam vossas almas, doravante unidas, ó humilde casal. – Retomou o chefe da tribo. – Sejam vossas vidas virtuosas e isentas de qualquer mácula; e assim sejam eternas, tal qual à do velho Nirândri, que vive eternamente em sua montanha. Meus filhos, - Voltando-se aos demais. – por mais difícil que manter-se retidão absoluta e seguir o desejo das Divindades pareça, o sacrifício é descomunalmente menor que a recompensa. Quanto mais afinco tiverdes em cumprir o que vos digo, mais longas e virtuosas serão vossas existências. O sábio Nirândri; devido a suas atitudes e seus pensamentos, mais nobres que o de qualquer outro homem do mundo; foi presenteado pelos Deuses com a eternidade. Fazei assim e vós alcançareis!
Toda a aldeia bradou ao som da última frase e, logo após, viu o jovem casal se beijar à melodia rouxinólica das flautas.
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