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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Eternidade, 4º e Último Capítulo: Morrer Sim

O jovem de não mais de dezesseis anos tomara uma decisão.

Apesar dos apelos de sua esposa, no dia seguinte ele saiu bem cedo. Enchera o cantil e pusera numa sacola pão e carne seca. Com certeza teria fome, pois subiria até o topo da montanha mais alta da ilha. Tinha como objetivo, logicamente, encontrar o eterno Nirândri, o mais velho de todos os homens, que vivia no alto dela.

O jovem deu um beijo de despedida em sua mulher e partiu para sua jornada. Passou pelo bosque costumeiro, cujo chão estava um carpete de margaridas. Borboletas cruzavam-lhe o caminho de vez em quando, pousando nas flores para lhe desfilarem suas asas coloridas. Esquilos tímidos atravessavam docemente galhos sobre sua cabeça, tendo o canto dos pássaros como trilha sonora. Aproveitou para recolher uns gravetinhos, caso quisesse fogo. A beleza da floresta o inspirava a seguir. Deus fizera o mundo lindo demais para se desfazer dele.

A trilha foi seguindo até o mato crescer demais e as árvores começarem a rarear. O rapaz viu-se então num imenso descampado. A grama reluzia feito ouro à luz do sol do começo da tarde. Ao longe, ele podia ver a imponente montanha a qual escalaria. O jovem caminhou pouco menos de duas horas através do campo, abrindo caminho através do capim amarelo. Encontrou ratinhos simpáticos escalando e escorregando as gramíneas à mercê do vento fresco. Uma ou outra graciosa andorinha passou pelo céu enquanto ele estava olhando. Quando um riacho cruzou seu caminho, ele aproveitou para recarregar seu cantil, lambiscar seu lanche e tirar uma soneca na relva molhada, embalado pelo balido das cabras. Se naquele instante um raio o partisse ao meio, pensou, morreria feliz...

Morrer feliz?! Pra morrer é melhor sentir a necessidade! Sofrer, chorar, gemer, padecer, amargar; ver a vida como um mar de angústia, mesmo que se tenha acabado de cair nele; e ver a morte como boia salvadora, como fim do suplício. Não! , os felizes não querem morrer!

Por isso, era imprescindível encontrar o Nirândri.

O garoto acordou, recolheu seus objetos e seguiu viagem. Andou várias horas até o terreno começar a se inclinar. Foi anoitecendo, e foi chovendo uma chuva fraca e incômoda, e esta aumentando gradativamente. Ele, então, encontrou ao pé da montanha uma conveniente caverna para abrigar-se. O frio dos mares austrais se fazia sentir dentro da caverna, ainda que bastante atenuado. Uma fogueira, portanto, foi extremamente necessária para se secar e se aquecer.

Comendo seu pão e sua carne seca, o rapaz pôs-se a pensar no dia que viria. Estava exausto, sentia uma preguiça terrível. Subir uma montanha umas mil vezes mais alta que ele no dia seguinte? Não parecia valer a pena. E que garantia ele tinha? Quem garantia que o Nirândri estaria disposto ajudá-lo? Quem garantia que ele ainda estaria em cima da montanha depois de tantos anos? Afinal, que o menino soubesse, ninguém mais fora procurá-lo. Quem mesmo garantia que viver para sempre era possível? Que fim não fosse certo? Quem garantia que os Deuses simplesmente não se enjoavam de ver um velho perambular pelo mundo por mais de meio século e lhe tiravam a vida? Seu recente sogro, patriarca da tribo, porta-voz das Divindades? Não acreditava que ele aguentaria mais dois invernos. Aliás, outro cacique havia morrido antes do atual, lembrava-se disso; e com certeza outros morreram antes de seus sucessores; e decerto muitos ainda se tornariam caciques e morreriam antes dos Deuses revelarem o segredo da imortalidade.

Seus pensamentos mórbidos o conduziram a um sono pesado e revigorante, que reconstruiu seus músculos e lhe deu fôlego, a terminar já no meio da manhã. Voltar? Já andara tanto até ali! Antes de anoitecer teria a companhia do velho Nirândri, tendo-o como mestre, aprendendo com ele a arte da virtude absoluta. Morte certa era uma ideia absurda; em seu vilarejo, havia quase cem pessoas vivas que podiam provar o contrário; e quantas mais existiriam no mundo?! E ele seria uma delas! , porque subiria a montanha e encontraria o sempre vivente Nirândri!

O menino abandonou a caverna e prosseguiu com sua marcha. A montanha, diferente do campo, tinha ainda os resquícios do que devia ter sido uma trilha. Havia, contudo, partes em que esses resquícios simplesmente sumiam: buracos, becos sem saída, ninhos de condor bloqueando a passagem. Nesses casos, fazia como os cabritos: pulava, subia pelas paredes ou achava outro caminho para seguir. Ao longo do dia, cansou-se bastante. Foram precisas muitas pausas, mas continuou ávida e ofegantemente até o cume, onde o garoto encontrou o propósito da viagem.

No alto da montanha, primeiramente, ele teve a deslumbrante vista de sua vila, das casas de todo mundo que conhecia, de todo caminho que havia percorrido, do infinito mar azul-marinho, das fragatas voando e de todas as ilhas pelas quais o arquipélago era formado e cuja existência ele nunca imaginara. Suspirou. Era tão magnífica a obra de Deus que o garoto nem bem notara que, no meio no pequenino platô nevado, havia um velho deitado no chão.

O menino chegou mais perto e ajoelhou-se, perguntando:

- Sois vós o famoso e sempiterno Nirândri, cuja vida é sem fim, cujo coração é repleto de virtude, que é tão benquisto pelos Deuses?

O velho nada respondeu.

- Sois o Nirândri? Imploro-vos, dizei-mo! – Insistiu o garoto humildemente.

Mas resposta nenhuma foi ouvida.

O jovem resolveu imitá-lo: deitou ao seu lado, mirando o céu. O velho deitado no alto da montanha só podia ser o Nirândri. Se o Nirândri não falava, emitir qualquer som devia ser um ato vicioso. Ficou algumas horas assim, deitado, sobre a neve gelada e sob o céu sem nuvens. Óbvio que, passado algum tempo, começou a sentir o frio da neve nas costas e o ardor do sol na barriga. Cansou-se. Adotou uma postura mais enérgica.

- És o Nirândri ou não?! Diz-mo já! Se não és, onde está ele?! – O garoto ajoelhou-se novamente, e gritou bem alto no ouvido do ancião.

E, de novo, de sua boca não saiu uma palavra.

- Responde-me logo, velho arrogante! – O garoto se irritou, pegou o Nirândri pelos ombros e pôs-se a chacoalhá-lo.

O toque da pele do Nirândri, de súbito, repeliu o as mãos do executor da orca. Era tão gelado quanto a neve do chão. Enrugado, seco, que nem o couro de seu cantil. Ossudo, magérrimo; não devia comer a dias, ou meses, ou anos! O jovem, então, tomou coragem e levantou-o novamente; embora fosse frágil como um idoso, ainda era duro como uma estátua, inanimada, esquecida há várias eras no alto da montanha. Averiguou melhor a face do ancião: os olhos e bochechas, tão murchos e tristes, irradiando tanto arrependimento. O rapaz jamais imaginara o Nirândri tão árido e escuro, e tão... cadavérico!

Se aquela era a eternidade de que o cacique tanto falara, o garoto viu seu problema sem solução. Arrastaria sua esposa para aquele cume, onde permaneceriam indefinidamente jazidos no frio da neve e no calor do sol; tornando-se gelados, enrugados, secos, ossudos, magérrimos, frágeis, duros, escuros, áridos, murchos; tão tristes, tão arrependidos e tão cadavéricos quanto o Nirândri, que os acompanharia pelo resto da eternidade. E durante o tempo infinito, não falaria mais com seus amigos do povoado; não veria sua família nem nenhum de seus compatriotas; não teria filhos; não expressaria seu amor por sua mulher, mesmo que fosse tê-la para sempre a seu lado; nem a veria mais, nem sua querida aldeia, nem as praias, nem os bosques, nem as flores, nem os pássaros, nem as borboletas; só veria, doravante, o céu sobre si, o sol, a lua e as estrelas na escuridão. Não usufruiria mais de nenhum prazer, nenhum mesmo, dos gozos mais mundanos aos mais espirituais.

Na eternidade em que se encontraria, refletiu, boia da morte seria assaz bem-vinda.

O menino, então, vestiu novamente sua pele de foca e permaneceu sentado, olhando para o chão. E se a felicidade, mesmo sem o impedimento da morte, não fosse eterna? As Divindades, que num estalar de dedos lha deram, num outro poderiam arrancá-la dele. Já tivera glórias antes, e antes também já sofrera. Quando menos esperasse, Elas poderiam mandar discórdias, enfermidades, vergonhas, tragédias e malefícios de todo tipo para perturbá-lo. E, a medida que a idade avançasse, Elas se tornariam cada vez mais sádicas; ficaria velho, fraco e carrancudo, teria dores e ofegaria sem motivo, como tantos velhos de que se lembrava; a ponto que um dia, a Morte lhe apareceria, mostrando sua face maternal, e o levaria para longe do sofrimento.

O rapaz de não mais de dezesseis anos ficou de pé e respirou profundamente, tendo a visão completa de seu arquipélago pela última vez. O perfume da maresia, por incrível que pareça, chega até o topo da montanha. Era maravilhoso. A comida estava acabando, mas ele enxergava, por onde voltaria, uns bons ovos no ninho de uma condor ausente, que Deus, tão sábio e bondoso como só Ele é, lhe pusera no caminho a fim matar sua fome.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Eternidade, 3º Capítulo: Homens e Baleias

Na manhã seguinte, o rapaz acordou com o canto dos bem-te-vis à entrada de sua cabana. O sol, já alto no céu, incidia numa distante superfície do chão; a claridade, contudo, se estendia por todo o aposento. Ele virou de lado, na tentativa de protelar seu despertar, e deparou-se com a face angélica da mulher que sempre desejou, sua esposa consumada, a dormir ao seu lado. Sorriu. Não se lembrava de alguma vez na vida ter comido de uma carne tão suculenta, nem de ter bebido de um licor tão doce, nem de ter escutado uma música tão canora. Nem de sobreviver a uma morte tão certa, nem de receber comparável glória, nem, com toda a certeza, de possuir, para o resto da vida, mulher tão doce e dedicada, tão cobiçada por todos e infinitamente amada por ele. Os Deuses, imaginou, não poderiam ser mais generosos.

O jovem levantou-se. Beijou a bochecha de sua mulher, que, com isso, acordou suavemente e lhe desejou bom dia. Ele respondeu a ela com o maior entusiasmo que já imprimira em um cumprimento. Antes mesmo de se vestir, saiu à porta de sua cabana; a fim de contemplar a natureza celeste; ouvir o barulho das ondas; respirar a fresca brisa matinal, perfumada de lavanda, e expirar com ela um pouco de seu júbilo, compartilhando-o assim com o resto do mundo. Não foi esse, entretanto, o fino aroma que o garoto sentiu.

Ao nariz dele, ao invés, chegava um cheiro pútrido de carniça. Urubus e gaivotas pairavam sobre o povoado, descendo quando lhes vagava espaço e ascendendo quando se enchiam a barriga. De quê? Ora, dos restos mortais da baleia orca, no momento só um amontoado de tripas, ossos e cartilagem. Às aves, também se juntavam nuvens de moscas e tapetes de ratazanas, chafurdando no que outrora trouxera tanta alegria ao jovem de não mais de dezesseis anos.

E aquela cena o conteve durante algum tempo. O fedor, a infiltrar seu cérebro, o fazia pensar. A pobre baleia; como ele, que pescava; apenas buscava seu alimento em uma criatura inferior; e, contrariando todas as expectativas, foi assassinada pelas mãos de um homem. E se ela tivesse, como ele, conseguido uma grande honra para sua manada? E se tivesse, por exemplo, matado uma colossal fera devoradora de baleias? E se toda sua manada lhe fosse grata, e se tivesse podido desposar a fêmea mais bela e mais querida de seu povo? E se estivesse feliz! , infinitamente feliz! , igual a seu assassino, quando sua vida foi ceifada de um modo tão inesperado?

– Que olhas, amado marido? – Perguntou a esposa, rompendo seu raciocínio, a abraçá-lo sensualmente pelas costas. – Fiz-te compota de framboesas.

– Coitada da baleia. Tão forte e medonha; morta por um homem tão insignificante!

– Não te culpes, é presente das Divindades! Sabes disso.

– Não é esse o problema. – Ele contrapôs com um tanto inquieto. - E se um dia formos nós presente de outrem? Se, por acaso, eu for, ou tu fores, ou nós dois formos entregues a ínfimas formigas, como regalo dos Deuses? A ruína da alegria por mero capricho divino! Já pensaste nessa possibilidade?

– São poucos que recebem Deles a nossa sorte. – Reconfortou-o meigamente, enquanto lhe roubava um beijo. A imagem da baleia, porém, já havia ascendido lâmpada sobre cabeça dele.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Eternidade, 2º Capítulo: A Glória de uma Vida

Naquela noite, a aldeia encontrava-se em êxtase; em especial o rapaz de não mais que dezesseis anos, o qual triunfou sobre a temível baleia orca.

Era inacreditável seu feito. Num instante fazia castelos calmamente à beira do mar; no outro, sua lança furara resplendorosamente o crânio da baleia assassina; seus músculos bravios mil vezes mais ágeis que seu cérebro lerdo. A besta morrera, ao passo que pouco mais de meia dúzia de arranhões marcavam seu corpo. O que foi simples, súbito e particularmente aterrorizante, logo se transformou em glória e orgulho diante de toda a tribo. Voltara correndo logo depois da execução, ainda em estado de choque; e contara seu feito para alguns aldeãos seus amigos. Custaram a acreditar em sua história, mas conseguira convencê-los. Ele e mais cinco regressaram ao leito de morte da gigantesca baleia; e, com muito esforço, arrastaram-na todo o caminho de volta à tribo.

Quando chegaram, imediatamente, todos os camponeses largaram seus afazeres e se aproximaram para ver o corpo inerte da fera, em meio a suspiros e interjeições. O cacique apareceu de sua cabana, rogando ao povo abrirem-lhe passagem. Examinou o monstro de cabo a rabo, cutucou a lança cravada na cabeça, analisou nela os desenhos e as inscrições. Como patriarca da aldeia, ele sabia das armas de todos seus compatriotas; e ao analisá-la pôde ter certeza de que a lança era dele, a do menino de não mais de dezesseis anos.

­ Foste tu? – Acusou, dirigindo-se ao garoto. – Foste tu o executor desta horrenda besta dos oceanos?

­ Sim. – Ele respondeu respeitosamente, de cabeça baixa para o ancião.

O patriarca pigarreou. Então, falou alto, para toda a aldeia.

­ Matar este demônio marinho é uma prova de coragem jamais realizada por nenhum outro homem. Este rapaz proporcionou uma grande honra aos Deuses e Eles se rejubilam disto. Devido a sua enorme virtude, os Deuses, tão generosos como só Eles são, presenteiam toda a nossa tribo com a fartura desta baleia assassina. Essa é uma noite de festa, ó meus filhos! Abramos os tonéis de doce licor e assemos a baleia!

E respondeu-se ao chefe com os mais sinceros brados de alegria e orgulho de pertencer à tribo do fiel executor do monstro preto e branco.

As festividades, então, percorreram várias horas da noite. As estrelas o céu puderam observar de vários ângulos os aldeões dançando em volta da fogueira, ao som festivo dos tambores e das cítaras. O povo se fartou da carne e se embebedou do licor de cogumelo. Era uma alegria generalizada. Durante a toda noite, o jovem teve a chance de ser parabenizado por sua bravura e força por todos os habitantes da tribo. Todas as moças do povoado quiseram dançar com ele, e lhe foi um deleite cada uma das danças; com exceção de sua amada. Não a vira mais desde o começo da noite.

Dado instante durante as celebrações, a música parou e o cacique levou a mão do garoto ao alto. Tomou a palavra:

– Se os Deuses honraram nossa tribo com tão vigoroso presente, é justo, e vontade Deles! , que o homem que o conseguiu seja o mais honrado entre todos nós. Seus braços foram prestativos à provisão da aldeia e seu coração valente é nobre para conosco, segundo Eles! Será a mão de minha filha; ela, flor mais perfumada e estrela mais brilhante dos céus; sua honra e seu regalo, ofertada em nome das Divindades.

Abriu-se, então, caminho por entre o povo contente. Vários suspiros ecoaram no vilarejo, vindos de todas as bocas, ao se avistar a princesa; mais maravilhosa do que qualquer aldeão se lembrava. Foi em direção ao garoto que matara a orca, ornada das mais coloridas penas e flores e olhos negros tão lustrosos como ele jamais vira enfeitar sua face. Suas mãos, macias como a neve cadente, pegaram as dele, enquanto eles se encaravam, e se sorriam, fazendo de cada um daqueles quatro olhos um universo sublime.

– Os Deuses abençoam vossas almas, doravante unidas, ó humilde casal. – Retomou o chefe da tribo. – Sejam vossas vidas virtuosas e isentas de qualquer mácula; e assim sejam eternas, tal qual à do velho Nirândri, que vive eternamente em sua montanha. Meus filhos, - Voltando-se aos demais. – por mais difícil que manter-se retidão absoluta e seguir o desejo das Divindades pareça, o sacrifício é descomunalmente menor que a recompensa. Quanto mais afinco tiverdes em cumprir o que vos digo, mais longas e virtuosas serão vossas existências. O sábio Nirândri; devido a suas atitudes e seus pensamentos, mais nobres que o de qualquer outro homem do mundo; foi presenteado pelos Deuses com a eternidade. Fazei assim e vós alcançareis!

Toda a aldeia bradou ao som da última frase e, logo após, viu o jovem casal se beijar à melodia rouxinólica das flautas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Eternidade, 1º Capítulo: Não Morrer

Havia um arquipélago perdido no meio do mais longínquo dos oceanos, a dezenas de quilômetros de qualquer outra massa de terra. Nelas, Deus semeara grandes pinheiros e abetos, onde passarinhos e esquilos faziam morada; cobrira de seixos praias onde pinguins e focas se fartavam no verão; esculpira imponentes montanhas onde salpicava a neve em todas as estações do ano; nas águas, pincelara correntes amenas que traziam os cardumes mais abundantes de todos os mares do planeta. O testamento de Adão legara esse pequeno número de ilhinhas a um povo privilegiado, não mais que cem almas viventes, que habitavam uma aldeia na foz de um rio gentil.

Era um povo que fazia por merecer sua Canaã. Eram muito trabalhadores, humildes e fraternos; amavam-se um ao outro tal como amavam a si próprios. Honravam a seus deuses e aos mais velhos, ouvindo sempre os conselhos tanto destes quanto daqueles. E eram recompensados por isso: nunca lhes faltara peixe para comer, pele para vestir, nem lenha para se aquecer. Viviam em amplas igualdade e fraternidade, numa harmonia comparável à celeste.

Numa tarde fria de verão, via-se sobre um pequeno rochedo no mar calmo um garoto no auge de sua adolescência; nem dezesseis anos, com certeza. Pescava, já fazia horas; com ausência de vento e ondas para incomodá-lo, continuava persistente e indiferente.

Pensava numa virgem, sua compatriota, obra-prima da divina criação. Os olhos dela, escuros e reluzentes, lembravam o mar à luz da aurora enluarada. Tão sorridente que não havia quem não se encantasse com seu semblante delicado. Sempre a via colhendo água às margens do rio; de torso nu para não se molhar, franzindo o cenho graciosamente com o peso do balde. Também a encontrava às vezes catando nozes na floresta, cantarolando tal qual um anjo; ele dizia-lhe não mais que um cumprimento tímido, o qual ela sempre retribuía com o olhar mais meigo, aconselhando-lhe cuidado com as orcas. Ele a desejava, mas do que qualquer coisa no mundo. Disfrutar dela todo o prazer do corpo e o amor do coração, casar-se com ela. Daria uma boa esposa, tinha certeza disso, posto que era obediente para com seu pai, patriarca da aldeia; e linda, mais linda que qualquer flor que nascera no Éden; o que todos os outros jovens da aldeia certamente já haviam percebido.

Quando dera por si, estava sentado sobre a pedra prestigiando as luzes austrais. Já se via o sol quase no horizonte, deveria regressar. Tinha umas boas quatro tainhas no cesto, que, esperava, matariam a fome de seus irmãos naquela noite. Sentiu o cabelo no rosto, a brisa terrestre que começava a soprar.

Num segundo, a tranquilidade se desfez. Quem dera não tivesse divagado tanto e se ativesse à pescaria; teria havido uma chance quem sabe; mas agora não havia mais tempo de fugir. Uma baleia assassina emergiu, com sua grande boca cheia de dentes prontos para dar fim ao frágil hominídeo. A vida humana e todos os seus sonhos se desfariam no menor átimo de desatenção, transformando-se apenas em insignificante subsistência ao corpo do animal predador.

Se num segundo se desfizera, mal tardou outro para a tranquilidade se refazer naquela praia. Seu coração, que quase já desistira de bater, ressuscitou numa taquicardia retumbante. Era um milagre! Deus o salvara com seu infinito poder. O rapaz estava vivo; a baleia, morta.