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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Coming Soon

Não tivemos tempo de ver a hora que escureceu. Decidíramos, um tanto em cima da hora, de ir ao cinema. Não me lembro direito com quem eu estava, acho que ela era minha namorada na época, mas não durou muito, eu creio.

O que era impossível de esquecer é que ela acabara de vir do cabelereiro. Passara a manhã inteira entretida numa escova progressiva. O motivo pelo qual era impossível de esquecer, como eu tinha dito, é que em cada fio escorregadio de seu cabelo estava impregnado com o odor cadavérico do formol.

Fomos tateando uma poltrona para nos sentarmos. Não demorou muito, havia pouca gente na sala, pois era a sessão do meio-dia. O filme era um desses nacionais de favela, desses que ninguém gosta, quanto menos num sábado na hora do almoço.

Na sala havia menos de uma dúzia de gente. Não conseguia distinguir os tipos que havia ao longe, mas, logo à nossa frente, sentava-se um grupo de adolescentes, meninas, pelos cabelos compridos que eu via, mas não discernia direito as cores e os tamanhos.

Coming Soon”, apareceu em preto no fundo branco da tela. Era apenas um trailer que acabava, porém o clarão da imagem possibilitou que chegassem a meus olhos os raios de luz mais primorosos que já tocaram minha retina.

A instantânea e fugaz claridade me fez notar a linda coroa dourada que estava em minha frente. A cabeleira era a única parte de garota que eu via.

Era cabelos loiros e brilhantes como a areia escaldante no pôr-do-sol de um dia praiano. Tinham leves ondas que a brisa sopra, aumentando nas pontas: um modo de fazer um gran finale. Os cabelos eram os mais maravilhosos do universo.

Minha curiosidade me tentava em ver a face da dona daqueles cabelos tão fascinantes, mas eu sabia que, infelizmente, aquela minha namorada estava lá. “Coming Soon”, disse o trailer, “são menos de duas horas para o filme terminar e você ver a rainha da coroa dourada”.

Eu esperava me distrair daquele filme chato assistindo os balanços do cabelo no ar-condicionado, mas minha namorada planejara “coisas amorosas” para fazermos durante o filme. Por isso que ela escolheu um filme tão desinteressante num horário tão ingrato.

Fizemo-nas, mas não encontrei a adrenalina que pensei que houvesse, ainda mais com o fedor cadavérico de seu cabelo.

Quando as luzes enfim se acenderam, a surpresa foi odiosa. A rainha da coroa dourada não passava de um muleque com cara de lua: cheio de crateras. Senti me êxtase se esvair rápida e dolorosamente, não era aquilo que eu imaginava.

Percebi, naquele dia, que não era minha petite amie quem eu amava, que por mais que ela tentasse me agradar, o meu coração não era dela, não pertencia a ninguém, podendo ser roubado por qualquer coisa nova que passasse no meu caminho.

1 comentários:

Pedro Figueira disse...

Não é muito original.=P