O polímero espessava meu já gelado sangue, eliminando qualquer chance do meu coração bater novamente. Um estudante de medicina fazia com seu bisturi um corte seco e morrido no meu abdómen. Estou morto, lembrei naquele momento. Cometi muitos erros na minha vida para acabar passando por isso. Eu era jovem, rico e belo, mas as minhas vantagens me subiram à cabeça e me tombaram à cova. Minha família tinha uma lucrativa fazenda no Mato Grosso. A cada ano, a safra batia um novo récorde. Quando eu vim para cá estudar na faculdade, me senti livre demais. Nada estudei, muito bebi, muito transei. Assim, o maligno vírus me adentrou por baixo, me arrancando as forças e a dignidade. De volta ao Mato Grosso, meu pai não quiz aceitar um aidético sob seu teto. Voltei, mendiguei e definhei até o momento presente. Uma aluna puxou com cuidado meu intestino grosso e colocou um pedaço num pote com formol. Seus olhos esticados estavam distraídos enquanto suas mãos trabalhavam com vida própria. Eles focavam no cara do outro lado da mesa de mármore. Ele rompia meu ureter para separar meu rim direito do resto. A garota admirava cada movimento que os olhos dele mexiam, cada preciso corte que suas mãos faziam, e ficava hipnotizada sem nem se dar conta. Serraram minha caixa torácica, onde se abrigavam meus pulmões afogados e meu coração adormecido. A menina, desastrada, desastrada demais para ser médica, distraída com o rapaz, deixou meu coração escorregadio cair debaixo da mesa. Ao abaixar-se, ela viu do outro lado o rapaz, que já o havia pego: – O seu coração. – Ele gaguejou, quando botou reparo pela primeira vez naquela senhorita com mão de mantega. Ele olhou no fundo de seus olhos finos e castanhos, como se pudesse ler todos os pensamentos que estavam em sua cabeça. Deu-lhe o meu coração, mas o dela ele não devolveu. – Obrigada. – Ela sentiu que ele era o alguém que a via por dentro (fechada e viva, lógico; não como eu), que ele sentia exatamente o que ela sentia e que ele estava disposto a passar o resto da vida com ela. Tudo naquele minúsculo tête-à-tête embaixo do meu corpo. – Você não quer sair comigo sexta à noite? Ela aceitou, e continuaram a conversa e a dissecação, sabendo agora que o coração de um agora era do outro.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Alguém que te Veja por Dentro
Postado por Pedro Figueira às 10/23/2009 03:01:00 PM
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