Começava a trabalhar naquele dia de semana a nova secretária do subgerente de um escritório qualquer. Chamava-se Lúcia, tinha uns vinte anos. Uma morena linda, gostosa e tudo de bom, e de muito respeito, viu? Todos os homens do escritório viviam a admirá-la. Ela não estava tão a fim de ninguém, mas estava aberta a quem quizesse tentar conquistá-la. Lúcia tinha um grande segredo, que ela acreditava não ser segredo pra ninguém. As mulheres, com suas línguas ofídicas, viviam fofocando desse segredo. Se elas não morressem de inveja da beleza de Lúcia, não o comentariam. Para os homens, que viviam distraídos por seu rebolar, esse segredo era absolutamente imperceptível. – Duvido você chamar a Lucinha pra sair! – Luís desafiou Mauro. Lucinha, como era conhecida na empresa, já estava com fama de difícil. Mauro a chamou, Lucinha aceitou, e assim começou um intenso namoro. Com o tempo os homens começaram a descobrir o segredo de Lúcia, que ela achava que não era segredo pra ninguém, mas achavam perfeitamente normal. Concordavam que Lucinha podia fazer tudo que quizesse apesar daqueles simples fato que Mauro, cego pelo amor, ainda não havia descoberto. Alguns anos se passaram, poucos, acho que uns dois, mas Lúcia não era mulher de se enrolar. Melhor casar logo, senão alguém mais rico ou mais bonito rouba. Foi isso que Mauro logo decidiu. Aproveitou um almoço de páscoa para pedi-la em casamento. – Quero fazer um pedido à mulher mais importante da minha vida – sacou do bolso o anel – Lúcia, você quer casar comigo? Proposta aceita, Mauro foi colocar o anel no dedo anular da mão esquerda de Lúcia. Mas que dedo? Que mão? Que braço? Só naquele dia que Mauro descobriu o segredo de Lúcia e o que ela era, digamos, especial. O amor é mesmo cego.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Um Segredo Não Guardado
Postado por Pedro Figueira às 10/26/2009 09:14:00 PM 0 comentários
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Alguém que te Veja por Dentro
O polímero espessava meu já gelado sangue, eliminando qualquer chance do meu coração bater novamente. Um estudante de medicina fazia com seu bisturi um corte seco e morrido no meu abdómen. Estou morto, lembrei naquele momento. Cometi muitos erros na minha vida para acabar passando por isso. Eu era jovem, rico e belo, mas as minhas vantagens me subiram à cabeça e me tombaram à cova. Minha família tinha uma lucrativa fazenda no Mato Grosso. A cada ano, a safra batia um novo récorde. Quando eu vim para cá estudar na faculdade, me senti livre demais. Nada estudei, muito bebi, muito transei. Assim, o maligno vírus me adentrou por baixo, me arrancando as forças e a dignidade. De volta ao Mato Grosso, meu pai não quiz aceitar um aidético sob seu teto. Voltei, mendiguei e definhei até o momento presente. Uma aluna puxou com cuidado meu intestino grosso e colocou um pedaço num pote com formol. Seus olhos esticados estavam distraídos enquanto suas mãos trabalhavam com vida própria. Eles focavam no cara do outro lado da mesa de mármore. Ele rompia meu ureter para separar meu rim direito do resto. A garota admirava cada movimento que os olhos dele mexiam, cada preciso corte que suas mãos faziam, e ficava hipnotizada sem nem se dar conta. Serraram minha caixa torácica, onde se abrigavam meus pulmões afogados e meu coração adormecido. A menina, desastrada, desastrada demais para ser médica, distraída com o rapaz, deixou meu coração escorregadio cair debaixo da mesa. Ao abaixar-se, ela viu do outro lado o rapaz, que já o havia pego: – O seu coração. – Ele gaguejou, quando botou reparo pela primeira vez naquela senhorita com mão de mantega. Ele olhou no fundo de seus olhos finos e castanhos, como se pudesse ler todos os pensamentos que estavam em sua cabeça. Deu-lhe o meu coração, mas o dela ele não devolveu. – Obrigada. – Ela sentiu que ele era o alguém que a via por dentro (fechada e viva, lógico; não como eu), que ele sentia exatamente o que ela sentia e que ele estava disposto a passar o resto da vida com ela. Tudo naquele minúsculo tête-à-tête embaixo do meu corpo. – Você não quer sair comigo sexta à noite? Ela aceitou, e continuaram a conversa e a dissecação, sabendo agora que o coração de um agora era do outro.
Postado por Pedro Figueira às 10/23/2009 03:01:00 PM 0 comentários
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Coming Soon
Não tivemos tempo de ver a hora que escureceu. Decidíramos, um tanto em cima da hora, de ir ao cinema. Não me lembro direito com quem eu estava, acho que ela era minha namorada na época, mas não durou muito, eu creio.
O que era impossível de esquecer é que ela acabara de vir do cabelereiro. Passara a manhã inteira entretida numa escova progressiva. O motivo pelo qual era impossível de esquecer, como eu tinha dito, é que em cada fio escorregadio de seu cabelo estava impregnado com o odor cadavérico do formol.
Fomos tateando uma poltrona para nos sentarmos. Não demorou muito, havia pouca gente na sala, pois era a sessão do meio-dia. O filme era um desses nacionais de favela, desses que ninguém gosta, quanto menos num sábado na hora do almoço.
Na sala havia menos de uma dúzia de gente. Não conseguia distinguir os tipos que havia ao longe, mas, logo à nossa frente, sentava-se um grupo de adolescentes, meninas, pelos cabelos compridos que eu via, mas não discernia direito as cores e os tamanhos.
“Coming Soon”, apareceu em preto no fundo branco da tela. Era apenas um trailer que acabava, porém o clarão da imagem possibilitou que chegassem a meus olhos os raios de luz mais primorosos que já tocaram minha retina.
A instantânea e fugaz claridade me fez notar a linda coroa dourada que estava em minha frente. A cabeleira era a única parte de garota que eu via.
Era cabelos loiros e brilhantes como a areia escaldante no pôr-do-sol de um dia praiano. Tinham leves ondas que a brisa sopra, aumentando nas pontas: um modo de fazer um gran finale. Os cabelos eram os mais maravilhosos do universo.
Minha curiosidade me tentava em ver a face da dona daqueles cabelos tão fascinantes, mas eu sabia que, infelizmente, aquela minha namorada estava lá. “Coming Soon”, disse o trailer, “são menos de duas horas para o filme terminar e você ver a rainha da coroa dourada”.
Eu esperava me distrair daquele filme chato assistindo os balanços do cabelo no ar-condicionado, mas minha namorada planejara “coisas amorosas” para fazermos durante o filme. Por isso que ela escolheu um filme tão desinteressante num horário tão ingrato.
Fizemo-nas, mas não encontrei a adrenalina que pensei que houvesse, ainda mais com o fedor cadavérico de seu cabelo.
Quando as luzes enfim se acenderam, a surpresa foi odiosa. A rainha da coroa dourada não passava de um muleque com cara de lua: cheio de crateras. Senti me êxtase se esvair rápida e dolorosamente, não era aquilo que eu imaginava.
Percebi, naquele dia, que não era minha petite amie quem eu amava, que por mais que ela tentasse me agradar, o meu coração não era dela, não pertencia a ninguém, podendo ser roubado por qualquer coisa nova que passasse no meu caminho.
Postado por Pedro Figueira às 10/14/2009 09:28:00 PM 1 comentários