Eu não sei ver a hora, mas no quarto do meu pai e da minha mãe tem relógio sem ser de girar; quando eu acordei hoje, eram dez e trinta e nove da manhã. Era terça, mas eu num ia na aula de natação, porque a minha mãe num ia poder levar eu. A minha mãe disse ontem que amanhã eu podia dormir até mais tarde um pouco, mais eu num queria, porque eu sabia que hoje no Digimon eles iam sair do digimundo e voltar pro mundo real; e eu queria ver, né? Eu tinha pedido pra ela me acordar cedo, mas ela esqueceu, eu acho. Na hora que eu acordei, eu desci a escada correndo, bem depois que eu olhei o relógio. Daí eu caí no último degrau, mas eu nem chorei. Minha empregada tava na sala, ela foi ver se eu tava machucado. Ela falou oi pra mim e eu falei oi pra ela. E aí eu liguei a televisão, mas ainda tava passando Tico e Teco, e Digimon passava depois. Daí eu fiz um leite com toddy e fiquei vendo Tico e Teco, só que eu gosto mais de Digimon. A minha empregada chama Luísa, daí uma hora a Luísa subiu lá em cima da escada pra arrumar a minha cama e eu fiquei vendo desenho. Quando já tava terminando o Tico e Teco, o desenho parou no meio, daí apareceu uma musiquinha e começou o jornal. Eu pensei que eu tinha sentado no controle e tinha mudado de canal, mas quando eu tentei voltar pro canal do desenho denovo continuava no jornal. Daí eu esperei um pouco pra ver se voltava a passar desenho, só que daí eu fiquei um tempãozão esperando e num voltou. E foi muito chato mais chato que jornal normal porque num mudava de notícia nunca, era toda hora só falando dum acidente dum prédio no Estados Unidos que tava pegando fogo que tinha batido um avião nele. Eu queria Ikkakumon pudesse aparecer e dar um Sopro de Gelo nessa droga de prédio chato pra mim poder ver desenho. Uma hora daí a Luísa desceu a escada meio correndo que nem eu desci, só que ela não caiu. Daí ela olhou pra televisão e fez uma cara de susto e desligou e ela disse pra mim ir brincar de outra coisa que aquilo num era coisa de menino de 5 anos assistir. Daí eu fiquei confuso: nem tinha mulher pelada!
sábado, 25 de setembro de 2010
O Prédio que Tinha Batido um Avião Nele
Postado por Pedro Figueira às 9/25/2010 06:54:00 PM 0 comentários
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Coração Mole: 2ª e Última Parte
Foram uma manhã de quarta-feira o dia e a hora planejados por Mariene para a realização de seus planos. Marcou o despertador para vinte minutos mais tarde, e se arrumou com se não estivesse atrasada. Chegou atrasada de propósito, pulou o muro para entrar. Ouviu do lado de fora; sua classe tinha aula de inglês, como planejado. Escolhera este dia principalmente porque essa professora era uma velha metida e porque seu aparelho vocal simplesmente não se adaptava a esse idioma chato cheio de vogais indefinidas, consoantes cuspidas e R’s puchados.
Chegou à porta de da classe. Nem me pergunte onde nem com quem ela arranjou um revólver, mas ela tirou um de dentro da mochila e entrou.
– Todo mundo pra parede! – Berrou com toda sua raiva e força. Como uma manada forte e numerosa de búfalos, os mais de cinquenta adolescentes e a velha metida acataram covardemente as ordens da leoa. Apertaram-se contra as paredes e contra si, tremendo de medo de uma baixinha com uma arma de fogo.
– Mariene, não faça nenhuma besteira. – Suplicou a professora. – Pelo amor de Deus, seja boazinha e largue essa ar...
– Cala a boca, sua velha filha da puta! – Interrompeu-a com ira. Voltou o olhar de volta aos colegas. – Vocês pensavam que iam sair assim, impunes?! Eu vim aqui pra São Paulo, me livrar daquela miséria de Pernambuco. Mas o que eu encontrei?! Vocês, seus escrotos, medíocres, seus merdas de jegue com lombriga, vocês fizeram desses quatro meses que eu morei nessa porra dessa cidade os piores quatro meses da minha vi...
– Calma, Mariene. A gente não sabia que você ia ficar assim bra... – Tentou conciliar Leandro, um menino que ela nem lembrava que existia, mas que ela odiava da mesma maneira que todos. Mariene interroumpeu-o brutalmente.
– Eu mandei vocês todos ficarem quietos! – Mariene esgoelou freneticamente. – Agora nem vem querendo pedir desculpa! Vocês pensam que eu sou retardada?! Se eu perdoo, eu sei que vocês vão voltar a atazanar a minha vida. Eu faço um bem pra a humanidade exterminando vocês, seus vermes! Vocês já foram longe de mais, agora não tem mais volta. Rezem o máximo que vocês conseguirem, vocês têm uma dívida grande demais com Deus.
Nesse intante, eis que surge um sussurro de um espírito amigo que amolece o coração de Mariene. No frenesi da escolha de sua primeira vítima, Mariene bate o olho em Bianca, uma menininha branquinha, fraquinha, mirradinha; ela até que era legal, não zoava muito Mariene. Falou algumas vezes com ela; tinham bastante em comum, o bastante para serem amigas, se não fosse pela segunda razão do décimo terceiro parágrafo. Bianca não precisava morrer hoje.
Mariene coçou a testa:
– Pensando melhor, – Apontando a arma para Bianca. – Bianca! Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Chamou-a com a mão do revólver, e mandou encostar na outra parede. Bianca obedeceu, ficou lá na parede sem fazer nada, tremendo de medo da chacina que presenciaria. – Agora vocês vão ver só, seu bando de tripa de bode com lavagem!
E mirando nervosamente o revólver em alguém, Mariene por acaso deu com a vista em Orlando, ou Haroldo; alguma coisa assim, ninguém lembrava direito. Era um moleque alto, timidozinho, mais mudo que uma pedra, com quem até Mariene nunca falara direito, nem ninguém. O garoto estava impressionantemente calmo para quem está prestes a morrer. Talvez ele tivesse algum grau de autismo, que, por negligência da família e da escola, nunca fora diagnosticado. O fato é que esse menino que ninguém sequer lembra o nome também nunca fizera mal a ninguém; ele não precisava morrer hoje.
– Hei, Arnoldo. – Do mesmo modo, mirou-lhe o revólver. Não havia nenhum Arnoldo na classe, porém ele sabia que se tratava dele mesmo. – Venha pra cá também. Você nunca fez nada pra mim, fez? Eu nunca fiz nada pra você, fiz? Pode vim pra cá. – Os colegas que estavam próximos, por caridade empurraram-o para fora do amontoado. Mariene conduziu-o até a parede onde Bianca permanecera e voltou a sua mira nos agora menos de ciquenta alunos mais a velha metida.
Todavia, como das outras vezes, o espírito do bem a guiou a perdoar seus colegas e um a um ela os foi passando para a outra parede. Depois do garoto, foram absolvidos a Joana, a Emily, o Edílson, o Robson, o Malcon, a Joice, a velha metida.... até sobrarem apenas a Helena e mais quatro de sua laia para morrer.
O coração mole de Mariene a levava a matar apenas quem realmente devia. Olhou de novo os condenados e proferiu:
– Eu sou mesmo muito boazinha, né? Mas, vocês cinco, ah! , vocês não têm escapatória.
Direcionou a arma bem na direção de seu maior alvo, Helena, aquela bruxa maldita. Mirou bem; não podia errar; sabia que todo mundo correria depois do primeiro disparo. Ouviu-se um bum por todo o Estadão e o piso da sala sujou-se de sangue e líquido cefalorraquidiano.
– Chega de palhaçada!
Na porta da sala, aparecera Torresmo, salvando a vida de sua amante e suas amigas. Abraçou forte Helena, a quem, por mais que odiasse, queria.
– Tá tudo bem com você, gata? Quando eu soube do que tava acontecendo, fiquei com tanto medo que você morresse!
Beijaram-se nervosamente, e olharam para o cadáver de Mariene estirado e ensanguentado no chão.
– Ah, gato, esse menina é pirada.
Algum dos salvos da outra parede tivera a brilhante ideia de mandar uma mensagem para Torresmo; no fundo, todos sabiam que a diretoria ou a polícia não resolveria nada. Bateu o sinal; apareceu o professor de álgebra e tiveram aula normalmente. Nenhum aluno da sala comentou nada durante a aula, mas trataram de espalhar bem o ocorrido no recreio, e ainda mais depois da aula no Orkut. Quanto ao corpo de Mariene, a faxineira deu conta disso mais tarde.
Postado por Pedro Figueira às 9/14/2010 09:35:00 PM 0 comentários
domingo, 12 de setembro de 2010
Coração Mole: 1ª Parte
O Parque Três Marias acabava de ganhar quatro novas moradoras.
A crise mundial fechara, na periferia recifense, o Abatedouro Boi-da-Cara-Preta. Uma das trabalhadoras era Eliane, cujos anos já somavam trinta e cinco; a cara aprentava já uns cinquenta; os músculos, ainda uns vinte. Criava ela sozinha duas filhinhas gêmeas de dois anos, cujo pai as abandonara, e uma sobrinha de quinze.
Há muito que já pensava nisso, enquanto ainda estavam estáveis em sua terra natal: ir para São Paulo já era vontade há muito tempo. Não foi nada muito planejado, mas, ao aportar em Taubaté, Eliane acabou arranjando um emprego de doméstica e uma casinha bem simples; se é que se pode chamar aquele barraco de casa; dois cômodos: um banheiro e um quarto-sala-cozinha; para ela, as filhas e a sobrinha chamarem de lar.
Isso deu-se lá por janeiro, de modo que ainda deu tempo de Mariene, a sobrinha, matricular-se no Estadão. Mesmo ainda em Pernambuco, Mariene nunca deixou de estudar; tinha muitas dificuldades, porém era uma aluna razoavelmente aplicada para quem cuidava de uma casa inteira e de duas gêmeas pentelhas. Ela sabia que quem não tem educação não tem como subir na vida. Veja-se o exemplo de sua tia e sua mãe: quando elas vieram analfabetas do sertão para o Recife, nem quiseram saber de procurar um supletivo. Restou a Eliane ceifar as vidas bovinas e à mãe de Mariene vender o corpo a turistas europeus e a caminhoneiros em abstinência. Bem, é fácil adivinhar que foi por causa de um “acidente de trabalho” que Mariene nasceu.
No primeiro dia de aula, Mariene chegou naquela classe toda zoneada com vista para a Via Dutra. Não estranhou, já estava acostumada ao fuzuê da educação pública. Viu aquela infinidade de mais de cinquenta carteiras e cadeiras, muitas delas quebradas, com adolescentes papeando e brincando enquanto a aula não começava. Mariene vestia-se com a mais absoluta simplicidade; calça jeans, camiseta branca e all-star preto, tímida pelo primeiro dia, sentou-se numa cadeira vaga da primeira fila, como era seu hábito em Recife. Ela era uma mulata baixa e corpulenta; não tapava a vista de ninguém; exceto quando os seu cabelo bombril estava mais armado que de costume. Já tivera uns dois namorados no Recife, mas não podia ser considerada bonita; estava, com muita boa vontade, entre média e feia. Enquanto esperava, conversou com umas meninas perto de si: é bom começar novas amizades.
A professora chegou. Os outros alunos, aparentemente, se amansaram. Era aula de química. Apresentou-se e começou a chamada. Foi seguindo a lista toda normalmente; até o número 36.
– Mariana.
– É Mariene, professora. – Corrigiu; num tom perfeitamente educado. Mariene pecara foi em nem tentar esconder seu sotaque nordestino; aliás, não pecou em nada. Pôde ouvir um grupinho de piranhas gargalhando no fundo da sala.
– Vê se aprende a falar direito, sua baiana morta de fome.
“Não, eu não ouvi absolutamente nada lá de trás.” Mariene pensou com insistência ao ouvir aquela voz fina de taquara-rachada zombando de sua origem “baiana”. Ignorou a provocação; Mariene tentou ser racional e pacífica; sabia que um revide não levaria a nada. A educadora fingiu que não tinha ouvido nada; duvido mesmo que tenha; e continuou a fazer a chamada. Alienadamente, ensinou nos cinquenta minutos seguintes o que é um átomo e se foi. Mariene, pelo contrário, não pôde ignorá-la, posto que a cada minuto escutava a voz rir alto e ardidamente, com mais monte de vozes cortesãs ao fundo.
Sentada numa mesa do fundo da sala estava a dona da voz que ria com um monte de paga-paus em volta. Era Helena, uma morena super gostosa. Pela educação continuada, ela fora aprovada até o primeiro ano; mas ia à escola sem outro porquê se não o de sua mãe mandá-la. Para alguém com ela, Helena até que respeitava seus pais. Não hesitava em matar aula quando queria, porém não era assim tão sempre. Vinha sempre bem maquiada, sempre de top e shortinho curto, revezando entre o jeans e a alfaiataria; ou ainda às vezes de minissaia ou de blusinha. Quando estava frio, era sempre um jeans colado que tranparecesse as curvas das suas pernas; e aproveitava para usar biquíni por baixo do casaco; sem falar que nunca descia de um salto alto. Vivia cercada de súditos que riam de suas zoações e surravam quem ela tinha vontade. Assim como toda mulher bonita e esperta, Helena era companheira de um cara poderoso. Seu namorado era alcunhado Torresmo, um traficante ascendente no bairro. Ele já tinha quase trinta anos, mas... você sabe. Pelo tipo de gente que se trata, é plausível imaginar que Helena já havia posto alguns pares de chifres na cabeça de Torresmo. É também bastante plausível que Torresmo promovesse que tais amantes tivessem logo seu encontro com Deus. Não eliminou todos, porque eram mesmo amantes demais, dos quais os vingados eram só a ponta do iceberg.
As seis horas diárias de escola passaram a ser um inferno na vida de Mariene. Não podia escutar uma música no celular que comprara que Helena a chamava de excluída. Não podia conversar com outra menina que Helena a chamava de paga-pau. Não podia conversar com um menino que Helena a chamava de piranha. Não podia responder uma pergunta certa ou tirar uma nota alta que Helena a chamava de nerd. Não podia responder uma pergunta errada ou tirar uma nota baixa que Helena a chamava de burra. Sem falar que seus súditos sempre riam de suas caçoadas e humilhavam Mariene ainda mais.
Aguentou tal situação relativamente calma até meados de maio; teve um piti e alguns derramentos de lágrimas nesse caminho; estas aconteceram em casa bem escondidas, onde havia duas criancinhas e uma tia que não se importavam. Quando deu o piti, jogou tudo que estava a mão sobre Helena, o que só fez toda a sala rir dela e os capangas da Helena aplicarem-lhe um corretivo. Depois disso, tomou sua decisão.
Já se passavam quatro meses, não entendia como tinha suportado tanto tempo. Só se aproximavam dela para rir. Cambada de terroristas! Eram um caruncho podre que enfeiava a batata de sua vida. Caruncho, que até agora ela engolia passivamente, Mariene percebeu que deveria cortar. Fazia um bem para a sociedade: se não fosse ela, haveria outra em seu lugar, chorando sempre ao voltar para casa. E aqueles vagabundos estariam sempre pisando em cima dela, expremendo todo o sangue e seus gritos de dor, simplesmente porque achavam engraçado. Corja de psicopatas! Era preciso decepar o mal pela raiz!
Postado por Pedro Figueira às 9/12/2010 04:40:00 PM 0 comentários