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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Eles se Merecem

Avistava-se o sol já vermelho refletido no rio, às sete da noite, na marginal do Tietê, parada; não como todo dia; mas como numa quarta-feira antes do Dia de Finados: um monte de paulistanos preparados para passar nove horas na serra dentro de um carro, como se valesse a pena, por uma praia lotada, chuvosa e fedorenta. Iam muito contentes por dentro, apesar de aproveitarem cada instante imóveis, que não são poucos, para xingar o motorista do carro à frente. Nesse turbilhão de alegria e estresse, incluía-se Fernanda, num ônibus, voltando para casa em Taubaté.

Fernanda aproveitara seu último dia de férias para passear em São Paulo com uma irmã que lá residia. Passearam no shopping pela manhã, chuparam sorvete, compraram maquiagem, almoçaram e viram muitas roupas, bolsas e celulares; e procuraram pelos respectivos similares à tarde na 25 de Março. Encontraram a maioria deles, inclusive um celular com wi-fi e televisão analógica que Fernanda aspirava há algum tempo. Compensou enfrentar a muvuca da capital paulista por ele.

Já fazendo uns vinte minutos da partida do ônibus da rodoviária, Fernanda encontrou-se ainda em frente ao Center Norte; concluiu que não chegaria tão cedo um quilômetro a frente, quem dirá em casa. Tirou a caixa do celular da sacola, e daquela o celular em si. Resolveu assistir o jornal, mas a bateria acabou antes mesmo de começar a novela. O jornal só falou do engarrafamento de mais de duzentos quilômetros em que estava inserida. Era angustiante. Suspirava umas três vezes a cada frase do repórter, sentiu até certo alívio quando o celular desligou. Esperou pacientemente um tempo, até dormir. Acordou depois de uma quase hora, ainda em frente a Corinthians.

Era melhor avisar alguém, deduziu. Seu pai logo pensaria que ela fora assaltada e não tinha dinheiro para voltar. Sua avó, então, pensaria que estava num hospital em Guararema repleto de acidentados de um engavetamento na Dutra. Sua mãe, nem se fala, pensaria que estava morta. Pensou em ligar para eles, mas queria falar com outra pessoa primeiro.

Pegou o celular velho e telefonou para o primeiro contato das últimas ligações, seu namorado. Ele não atendeu; não importa, não era uma ligação assim importante.

- Oi, gatinho, quem fala é a Fefê! Tô ligando pra avisar que eu vou chegar bem tarde hoje, daí eu vou direto pra casa e a gente se vê amanhã, viu? Você não acredita como tá trânsito hoje! Sabe, eu achei aquele celular com televisão que você queria. Eu tava assistindo o jornal agora: são mais de duzentos quilômetros de congestionameto! Tá um saco aqui, gatinho, mas amanhã a gente se vê. Te amo muitão! Tchau.

Desligou antes que desse um minuto de ligação. Ligou para sua casa, avisou da demora, e pronto. Quando adormecia, já algumas dezenas de metros frente, o telefone tocou. Era uma mulher, com uma voz um tanto raivosa.

- Boa noite, esse é o número da “Fefê”?

- Hã... – Achou estranho, só seu namorado a chamava de “Fefê” - Sou eu mesma, Fernanda.

- Minha filha, tô te dando um conselho: não quero mais nenhuma relação entre você e o Dalton. – Fernanda ficou confusa: ela não conhecia Dalton nenhum.

- Mas quem é...?

- Ele é MEU marido. – A esposa a interrompeu. – EU cheguei primeiro, e num vai ser uma fulaninha qualquer que nem você que vai tirar ele de mim. Não quero mais você falando com ele, nenhuma ligação, nenhum MSN, nenhum e-mail, nenhum torpedo, capisce?!

Fernanda achou melhor continuar o jogo dela, respondeu que sim, assim ela desligava logo. Ela não tinha nada a ver com isso; além do mais, o que aquela ciumenta doentia que ela nem conhecia podia fazer?

- Bom mesmo. – A mulher respondeu. – Você não sabe do que eu sou capaz. Adeus.

“Que paranoica!” Fernanda pensou “Coitado do marido dela!”

Resolveu ouvir um pouco de música em seu MP3. Depois de um tempo pensando em sua história curiosa, percebeu que havia esquecido do 0xx12 na hora de ligar para seu namorado. Fora só um engano, do qual já podia tirar algumas risadas.

Depois de um tempão, quando o ônibus já passava no pedágio de Arujá, seu celular tocou de novo.

- Oi, esse é o celular da Fernanda?

- Eu mesma.

- Aqui é o Dalton, doçura. De onde que a gente se conhece mesmo?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Velhos Ridículos

Já não era tão cedo no domingo de manhã quando Henriques e seu neto saiam do supermercado do bairro. Era julho, fazia sol, mas estava bastante frio; todo mundo devidamente encapotado no estacionamento. Haviam feito as compras da semana; arroz, alface, papel higiênico, sabão em pó..., além de umas bolachas e chicletes para o Guilherme, o neto; supermercado com avô tem sempre uma guloseima. Guilherme tinha então treze anos, veio de São Paulo passar as férias com seus avós, onde, além do mais, o resto da família morava. Depois que Henriques pagou, Guilherme passou dirigir o carrinho, enquanto seu avô o conduzia à sua frente, ajudando-o a desviar dos carros; apesar de não haver muitos para esbarrar. Henriques estacionara seu brasília de bunda para a outra vaga, a fim de facilitar a saída. Sorte que, quando voltaram, ainda não havia nenhum carro estacionado atrás, o que facilitaria muito a colocação das compras no porta-malas.

Enquanto Henriques punha um saco de ração no carro, eis que surge um palio cobiçando a vaga de atrás. Não estacionava nela, como dito, pois o carrinho de Henriques a ocupava. O palio buzinou.

- Vô, o cara tá querendo a vaga de trás.

- Espere, por favor. – Pediu Henriques a motorista, com a máxima polidez, sem nem desviar o olhar do serviço.

A buzina tocou de novo. Henriques olhou para trás, reconheceu o motorista, suspirou e leventou uma sobrancelha. Continuou a colocação, e murmurou para Guilherme:

- Ah, esse daí... ele que se foda.

O motorista irritou-se. Percebendo que os dois não se moveriam até terminarem, ele foi jogando o carro devagarinho para cima da vaga. Foi lento e silencioso, de modo que Henriques e Guilherme não reparassem até o corsa relar no carrinho e o carrinho, por sua vez, arranhar a trazeira do palio que Henriques comprara ainda esse ano.

- Porra, Macedo, seu filho da puta, o que que você tá pensando?! – Henriques gritou furioso.

- É pra ver se você não a tomar mais o meu lugar, Henriques. – Macedo declarou na calma mais sarcástica, depois de extravasar sua raiva no palio.

Macedo e Henriques eram vizinhos, inimigos há muito tempo, e por uma série de motivos. Macedo roubou de Henriques uma namorada. Henriques, de Macedo, roubou-lhe a esposa. Macedo, no emprego da fábrica, puxou de Henriques o tapete. Henriques, recuperando-se, comprou um terreno, por infortúnio, ao lado da casa de Macedo. Até aí, só se evitavam; mas logo começaram as mas diversas picuinhas: “o Macedo fica ouvindo música alto até tarde da noite!”, “o esgoto do Henriques tá sempre vazando, é um fedor!”, “a árvore do Macedo vai cair em cima do meu muro, e entope toda a calha!”, “mas essa brasília barulhenta do Henriques, me dá asma!”... Sem contar que os respectivos cães só defecavam em frente à porta do outro.

Nada dá mais raiva que um inimigo sarcasticamente calmo. Agora que as veias de Henriques se dilataram com o volume sanguíneo e saltaram-lhe pela careca. Quase estourou a caixa de leite que segurava, de doze litros em longa vida; enquanto pensava em uma resposta. Mas não achou. Terminar sem revide significaria perder. Jogou os doze litros sobre Macedo. Este tentou desviar-se, porém recebeu-os num ombro. Sobre o leite derramado no chão Macedo proferiu, ou melhor, gritou, derrubando-se toda a força da calma:

- Vai tomar no cu, você tá louco?! – E meteu-lhe o punho na face enrugada. E Henriques esmurrou-lhe a barriga, e Macedo chutou a bunda, e Henriques deu um pontapé na canela, e Macedo empurrou-lhe o carrinho sobre a pança... Até terminarem os dois rolando pelo chão, todos sujos de asfalto e sangue.

Henriques terminou por cima, havia acabado com toda sua raiva; vitória! Socou mais uma vez o queixo de Macedo com sua mão dolorida antes de olhar ao seu redor. Funcionários e algumas tiazinhas assistiam, absortos e preocupados. Alguns, mais egoístas, passavam quase tapando a cara de vergonha da quela cena. Guilherme e mais um bando de moleques, e inclusive um bêbado, que estavam ali perto, os assistiam, torciam e faziam apostas. Henriques levantou-se, guardou as compras no porta-malas o mais rápido que seu sessenta e três anos permitiam; puxou Guilherme pelo braço, fê-lo entrar no carro e partiu, vexado por sua petética versão de Street Vale-tudo Sênior.

Ao partirem, Guilherme declarou animado:

- Nossa Senhora, o meu vô é muito foda! O senhor bateu pra caralho hoje, hein vô?