- Novecentos dólares! – Tom quase enfartou ao abrir a conta de seu celular – Só pode estar errado!
Ele examinou atentamente aquele papel cheio de números e propaganda. Uma foto sorridente e cínica de uma atendente de telemarketing abaixo da conta dizia: ”Ligue para 555 6789, ficaremos felizes em resolver o seu problema.”
Tom era um americano que tinha namoricos com muitas mulheres, tinha uns trinta anos, um galãzão. Era um advogado muito bem-sucedido, já fizera absolver até o bandido mais cara-de-pau. Os ricos e poderosos de Los Angeles sempre requisitavam seus serviços. Anular aquela cobrança indevida seria fácil, fácil.
Pegou o telefone da mesa de seu escritório. Discou o número, morto de raiva.
Da primeira vez, o telefone chamou, chamou, chamou, chamou, e ninguém atendeu.
Da segunda, chamou, chamou, chamou, chamou, e atenderam:
- Bom dia. Lamentamos, nossas linhas estão congestionadas. Por favor, aguarde.
Aff!
Tom esperou um pouco pacientemente... depois, esperou outro pouco impacientemente. Estressou-se. Quando estava pronto para socar o fone na base, eis que surge a voz:
– Bom dia, senhor. Como posso ajudá-lo? – A raiva de Tom de súbito foi levada pela brisa da janela. Era uma voz doce e picante, maternal e sedutora, delicada e selvagem. Com um levíssimo sotaque indiano que escapou sem querer. Era uma sereia cantando do outro lado do mundo. Tom sentia a endorfina injetar-se em seu sangue, acalmando todas as suas células nervosas com o canto da anja que lhe falava do outro lado da linha.
– Hã... – Tom balbuciou feito um deficiente mental enquanto a voz da atendente ainda ecoava em seu cérebro. Nem passara o efeito da endorfina, secretou-se agora a adrenalina, que sempre vem avisar da paixão, fazendo o coração bater rápido e descompassado.
– Alô?
– É... é... é... não é nada. É só uma conta que chegou com valor errado. Não tem problema não. – Uma bela mulher faz qualquer homem de idiota, ainda que bela seja só sua voz.
– Qual é o seu nome, senhor?
– Tho... Thomas Smith Peterson.
– E o número no seu celular?
Tom foi gaguejando todos os seus dados pessoais, sem nem se dar conta, extasiado pelo cantar da indiana.
– Pronto, senhor Peterson. A sua conta é de cento e três dólares e quarenta e um centavos. A segunda via corrigida chega em até três dias úteis, sem custos adicionais. – Tudo é tão fácil quando a gente não está nem aí. – Tenha um bom dia.
Tom, desesperado pela possibilidade de nunca mais ouvir o canto pela qual se apaixonara, deu logo um grito:
– Espera! Você... você não quer sair comigo uma noite dessas?
– Senhor Peterson, eu moro em Mumbai! Do outro lado do mundo! – Esse era um ínfimo detalhe que Tom havia esquecido.
– Mas... mas pelo menos me diga o seu nome?
– Latika, Latika Malik.
– E o meu é Tom, Tom Peterson, de Los Angeles.
– Tenha um bom dia. – Tom a ouviu beijando a ponta do microfone. Por algum motivo, Latika sentia por Tom algo parecido com o que ele sentia por ela. E ele percebeu isso.
– Você também – Ele colocou lenta e tristonhamente o fone na base. Pegou de novo a conta equivocada de seu celular.
Passou o dia inteiro imprestável olhando a foto da atendente de telemarketing sorridente e simpática que ele injustamente supôs cínica. Agora ele olhava a morena de cabelos lisos de cipó e olhos negros de tigre com bons olhos e se questionava se Latika era tão bonita quanto a moça da foto.
Esse era uma pergunta que ele sofria por saber que nunca descobriria a resposta. Por mais que ele ligasse de novo para lá, nunca mais seria ela, Latika, a sereia com a voz que canta do oriente quem atenderia seu chamado. É duro saber que nunca mais ouviria o som mais belo que já escutou em sua vida.
Depois de tantas horas namorando aquela foto, Tom tomou a decisão mais maluca que já tomara. Interfonou para sua secretária:
– Sandra, me arranja pra hoje à noite uma passagem pra Índia.

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