Segunda feira, Yvany acordou cedo, às seis horas da manhã, com um enfezamento cotidiano, mas um pouco maior, porque era segunda feira. Tomou um banho quente, por bastante tempo, até criar um nevoeiro cegante no seu pequeno banheiro. Acordou seu marido, seus filhos; comprou pão; fez café; cafeou com sua família calada, porque comiam adormecidos; escovou os dentes.
Pegou o ônibus para trabalhar, era empregada doméstica. Ser doméstica é ter duas casas, duas famílias, ao invés de uma só. Às vezes, as famílias são legais, às vezes são chatas. Suas duas se enquadravam no segundo grupo, mas as amava mesmo assim. O dobro de serviço para fazer, mas o dobro de carinho para dar e receber.
Chegou à casa dos patrões às oito e vinte. A família tinha um filho de dezessete anos chamado Lucas que, àquela hora, já devia haver ido para a escola. Fez o café para os pais resolveu começar lavando a roupa do fim de semana.
Foi até os banheiros pegar os cestos de roupa suja. Notou algo raro: havia um par de tênis no cesto do banheiro de Lucas. Algumas manchas marrons pintavam abstratamente aquele caro par de tênis esportivo. Procurou um pouco mais no cesto e achou uma calça, uma camisa e uma cueca tingidas daquele mesmo marrom castanho do tênis.
"Como que aquele moleque foi capaz de derramar toddy na roupa inteira? Até no tênis? Essa mancha vai ser superdifícil de tirar! Odeio lavar sapato! Não dá para lavar na máquina, tem que ser na mão mesmo. Esfregar, esfregar, esfregar! Tortura! Se ao menos fosse só na roupa. Moleque destrambelhado! Não consegue nem tomar um copo de leite com toddy sem se sujar inteiro! Vontade de dar nele.” Pensava ela enquanto punha as roupas na máquina.
Quando ia começar a esfregar o tênis, Yvany encarou aquelas manchas de toddy. Passou os dedos sobre elas, pareciam duras e claras demais para ser toddy. Resolveu levar o calçado até o nariz para identificar a misteriosa sujeira. Não tinha a mesma doçura naquele odor do que o que ela esperava encontrar. Não, não é toddy.
Tocou o telefone.
– Alô? Yvany? É você? – Chorava uma voz conhecida.
– Oi, dona Cláudia, o que foi que aconteceu?
– O Lucas teve um acidente de carro essa madrugada. Ele está em coma agora.
1 comentários:
Hahahaha, curti Pedro. Tá super bem escrito. O tema é legal... ^^ aushuahsaus é trágico mais eu gostei. Parabéns. Aline
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