Começava uma tarde que prometia... muita chatice. Eu voltava da escola. Depois que eu almoçasse, não haveria nada para fazer. Dormir, acordar e dormir de novo, nada mais para fazer.
Eu passava numa rua calma, não deserta, só sem muito movimento. Era no centro da cidade, mas só havia residências, no máximo, consultórios. Todos os muros, pelo menos, com lanças, quando não com cacos de vidro, arames enfarpados e cercas elétricas, mesmo os das casas mais humildes.
(Viva a ditadura!)
Eu estava passando na frente de uma normalzinha, nem bonita nem feia, nem rica nem pobre, nem sei quem lá morava. O importante é que tinha cerca elétrica. O muro não era do tipo ”baixo”, contudo, percebia-se que meus braços não precisavam se esticar ao máximo para que meus dedos a tocassem.
Daí, pensei comigo: Eu posso passar a vida inteira sem nunca botar a mão numa cerca elétrica! Elas não matam, matam? Será que dói muito?(Lógico, dãr!) Será que eu desmaio?(Melhor que não.) Será que eu morro?
Meus muitos pensamentos sãos me diziam para não fazê-lo. Mas os insanos berravam: ”Faça que nada te acontece!”, e muito mais alto.
Me decidi. Levantei meu ombro num ângulo obtuso. Meu dedo indicador tocou suave e finalmente o fio estralante.
Senti os severos elétrons voarem do fio ao chão usando de ponte o meu corpo. Severos porque puniram dolorosamente o erro que eu cometi. Vieram queimando cada célula do meu corpo com seu fogo invisível e trêmulo. Trêmulo porque roubavam as forças dos meus músculos gradativamente, que cada vez ficavam mais trêmulos, até minhas forças se esgotarem e meu corpo cair no chão.
Desmaiei.
Consegui ouvir uma menina falando no celular. Escutei o nome da rua onde eu estava, nada mais eu entendi da conversa, só o ar preocupado com que falava. O porquê desse ar me era um mistério.
Assim que me desative da audição, senti uns socos no meu estômago, mas não me concentrei na dor, e um beijo quente e doce na minha boca.
Era um beijo tão quente que ardia, mas não tanto, pois o choque já me anestesiara. Doce porque eu sentia o desespero e a preocupação por mim, que eu não entendia, de quem me beijava.
Ouvi uma sirene cada vez mais alto vindo de longe. Quando acordei, dentro da ambulância, me vi todo queimado e com o cabelo arrepiado. No hospital, fiz um monte de exames, que só ocuparam de um jeito ainda mais tedioso a tarde que já seria. Mas não completamente.
Conheci lá as duas meninas que me salvaram. Uma era loira. Com dois olhos feito água marinha, pele branca como uma nuvem no verão, que parecia ser tão sedosa quanto. Era apaixonante, justamente pois já sabia da gostosura de seu beijo, e seu corpo ondulado, por baixo da calça jeans e do uniforme do curso técnico de enfermagem, parecia mais delicioso ainda.
Me poupo de descrever a outra. Lhe seria humilhante.
Elas me contaram que me viram desmaiar, a loira fez o boca-a-boca e a massagem cardíaca enquanto a outra chamou o resgate.
– Que bom que a gente tava lá pra te socorrer. – Disse a linda loira, dando um beijinho na minha testa.
Ela nem imagina o quanto!
