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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Conto Chocante

Começava uma tarde que prometia... muita chatice. Eu voltava da escola. Depois que eu almoçasse, não haveria nada para fazer. Dormir, acordar e dormir de novo, nada mais para fazer.

Eu passava numa rua calma, não deserta, só sem muito movimento. Era no centro da cidade, mas só havia residências, no máximo, consultórios. Todos os muros, pelo menos, com lanças, quando não com cacos de vidro, arames enfarpados e cercas elétricas, mesmo os das casas mais humildes.

(Viva a ditadura!)

Eu estava passando na frente de uma normalzinha, nem bonita nem feia, nem rica nem pobre, nem sei quem lá morava. O importante é que tinha cerca elétrica. O muro não era do tipo ”baixo”, contudo, percebia-se que meus braços não precisavam se esticar ao máximo para que meus dedos a tocassem.

Daí, pensei comigo: Eu posso passar a vida inteira sem nunca botar a mão numa cerca elétrica! Elas não matam, matam? Será que dói muito?(Lógico, dãr!) Será que eu desmaio?(Melhor que não.) Será que eu morro?

Meus muitos pensamentos sãos me diziam para não fazê-lo. Mas os insanos berravam: ”Faça que nada te acontece!”, e muito mais alto.

Me decidi. Levantei meu ombro num ângulo obtuso. Meu dedo indicador tocou suave e finalmente o fio estralante.

Senti os severos elétrons voarem do fio ao chão usando de ponte o meu corpo. Severos porque puniram dolorosamente o erro que eu cometi. Vieram queimando cada célula do meu corpo com seu fogo invisível e trêmulo. Trêmulo porque roubavam as forças dos meus músculos gradativamente, que cada vez ficavam mais trêmulos, até minhas forças se esgotarem e meu corpo cair no chão.

Desmaiei.

Consegui ouvir uma menina falando no celular. Escutei o nome da rua onde eu estava, nada mais eu entendi da conversa, só o ar preocupado com que falava. O porquê desse ar me era um mistério.

Assim que me desative da audição, senti uns socos no meu estômago, mas não me concentrei na dor, e um beijo quente e doce na minha boca.

Era um beijo tão quente que ardia, mas não tanto, pois o choque já me anestesiara. Doce porque eu sentia o desespero e a preocupação por mim, que eu não entendia, de quem me beijava.

Ouvi uma sirene cada vez mais alto vindo de longe. Quando acordei, dentro da ambulância, me vi todo queimado e com o cabelo arrepiado. No hospital, fiz um monte de exames, que só ocuparam de um jeito ainda mais tedioso a tarde que já seria. Mas não completamente.

Conheci lá as duas meninas que me salvaram. Uma era loira. Com dois olhos feito água marinha, pele branca como uma nuvem no verão, que parecia ser tão sedosa quanto. Era apaixonante, justamente pois já sabia da gostosura de seu beijo, e seu corpo ondulado, por baixo da calça jeans e do uniforme do curso técnico de enfermagem, parecia mais delicioso ainda.

Me poupo de descrever a outra. Lhe seria humilhante.

Elas me contaram que me viram desmaiar, a loira fez o boca-a-boca e a massagem cardíaca enquanto a outra chamou o resgate.

– Que bom que a gente tava lá pra te socorrer. – Disse a linda loira, dando um beijinho na minha testa.

Ela nem imagina o quanto!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Voz que Canta do Oriente


- Novecentos dólares! – Tom quase enfartou ao abrir a conta de seu celular – Só pode estar errado!

Ele examinou atentamente aquele papel cheio de números e propaganda. Uma foto sorridente e cínica de uma atendente de telemarketing abaixo da conta dizia: ”Ligue para 555 6789, ficaremos felizes em resolver o seu problema.”

Tom era um americano que tinha namoricos com muitas mulheres, tinha uns trinta anos, um galãzão. Era um advogado muito bem-sucedido, já fizera absolver até o bandido mais cara-de-pau. Os ricos e poderosos de Los Angeles sempre requisitavam seus serviços. Anular aquela cobrança indevida seria fácil, fácil.

Pegou o telefone da mesa de seu escritório. Discou o número, morto de raiva.

Da primeira vez, o telefone chamou, chamou, chamou, chamou, e ninguém atendeu.

Da segunda, chamou, chamou, chamou, chamou, e atenderam:

- Bom dia. Lamentamos, nossas linhas estão congestionadas. Por favor, aguarde.

Aff!

Tom esperou um pouco pacientemente... depois, esperou outro pouco impacientemente. Estressou-se. Quando estava pronto para socar o fone na base, eis que surge a voz:

– Bom dia, senhor. Como posso ajudá-lo? – A raiva de Tom de súbito foi levada pela brisa da janela. Era uma voz doce e picante, maternal e sedutora, delicada e selvagem. Com um levíssimo sotaque indiano que escapou sem querer. Era uma sereia cantando do outro lado do mundo. Tom sentia a endorfina injetar-se em seu sangue, acalmando todas as suas células nervosas com o canto da anja que lhe falava do outro lado da linha.

– Hã... – Tom balbuciou feito um deficiente mental enquanto a voz da atendente ainda ecoava em seu cérebro. Nem passara o efeito da endorfina, secretou-se agora a adrenalina, que sempre vem avisar da paixão, fazendo o coração bater rápido e descompassado.

– Alô?

– É... é... é... não é nada. É só uma conta que chegou com valor errado. Não tem problema não. – Uma bela mulher faz qualquer homem de idiota, ainda que bela seja só sua voz.

– Qual é o seu nome, senhor?

– Tho... Thomas Smith Peterson.

– E o número no seu celular?

Tom foi gaguejando todos os seus dados pessoais, sem nem se dar conta, extasiado pelo cantar da indiana.

– Pronto, senhor Peterson. A sua conta é de cento e três dólares e quarenta e um centavos. A segunda via corrigida chega em até três dias úteis, sem custos adicionais. – Tudo é tão fácil quando a gente não está nem aí. – Tenha um bom dia.

Tom, desesperado pela possibilidade de nunca mais ouvir o canto pela qual se apaixonara, deu logo um grito:

– Espera! Você... você não quer sair comigo uma noite dessas?

– Senhor Peterson, eu moro em Mumbai! Do outro lado do mundo! – Esse era um ínfimo detalhe que Tom havia esquecido.

– Mas... mas pelo menos me diga o seu nome?

– Latika, Latika Malik.

– E o meu é Tom, Tom Peterson, de Los Angeles.

– Tenha um bom dia. – Tom a ouviu beijando a ponta do microfone. Por algum motivo, Latika sentia por Tom algo parecido com o que ele sentia por ela. E ele percebeu isso.

– Você também – Ele colocou lenta e tristonhamente o fone na base. Pegou de novo a conta equivocada de seu celular.

Passou o dia inteiro imprestável olhando a foto da atendente de telemarketing sorridente e simpática que ele injustamente supôs cínica. Agora ele olhava a morena de cabelos lisos de cipó e olhos negros de tigre com bons olhos e se questionava se Latika era tão bonita quanto a moça da foto.

Esse era uma pergunta que ele sofria por saber que nunca descobriria a resposta. Por mais que ele ligasse de novo para lá, nunca mais seria ela, Latika, a sereia com a voz que canta do oriente quem atenderia seu chamado. É duro saber que nunca mais ouviria o som mais belo que já escutou em sua vida.

Depois de tantas horas namorando aquela foto, Tom tomou a decisão mais maluca que já tomara. Interfonou para sua secretária:

– Sandra, me arranja pra hoje à noite uma passagem pra Índia.